Arquivo de Junho, 2008

22
Jun
08

Dom João V, Rei de Portugal

João V. O Magnânimo.

n.  22 de Outubro de 1689.
f.   31 de Julho de 1750.

24.° rei de Portugal.

N. em Lisboa a 22 de Outubro de 1689, onde também fal. a 31 de Julho de 1750. Era segundo filho de D. Pedro II, e de sua segunda mulher, a rainha D. Maria Sofia Isabel de Neuburgo.

Falecendo seu irmão mais velho, do mesmo nome João, a 30 de Agosto de 1688, tendo apenas um mês de vida, foi proclamado príncipe herdeiro em 1 de Dezembro de 1697, em acto solene na presença da corte, e por morte de seu pai, em Dezembro de 1706, subiu ao trono, sendo solenemente aclamado no dia 1 de Janeiro de 1707. Em 1696 fora armado por seu pai cavaleiro da ordem de Cristo. No Anno Historico, do padre Francisco de Santa Maria, vol. I, pág. 12 e seguintes, vem uma descrição minuciosa desta cerimónia e das festas que então se realizaram. D. .João V herdou de seu pai uma guerra que ia começar a ser desastrosa, a da Sucessão de Espanha. Os pretendentes eram o arquiduque Carlos e duque de Anjou, neto de Luís XIV, Filipe V. A Espanha aceitava a realeza de Filipe V, e D. Pedro II, de Portugal, aliara-se com os ingleses e os austríacos a favor do arquiduque. O duque Berwick, um dos generais de Filipe V, tinha na sua frente o general português marquês dás Minas, que na campanha de 1706 atravessou a Espanha e entrou vitorioso em Madrid, onde fez aclamar o arquiduque com o nome de Carlos III. Mas a vontade decidida de Espanha de querer Filipe V para seu rei, era muito poderosa. As províncias intermediárias entre Madrid e Portugal sublevaram-se em massa, ao mesmo tempo Luís XIV, por um esforço desesperado, reforçava as forças do duque de Berwick, e o marquês das Minas achava-se em Madrid cortado da fronteira portuguesa. Outro general do arquiduque, lorde Peterborough, desembarcara na província de Valência da qual tomara posse, e o marquês das Minas, obrigado a abandonar Madrid, em vez de se retirar para Portugal, foi para Valência. O duque de Berwick seguiu-o desejoso de dar batalha nas planícies dessa parte da Espanha, por causa da grande superioridade da sua cavalaria. O marquês das Minas desejava evitá-la, por isso mesmo, mas lorde Galloway, comandante das tropas auxiliares inglesas, insistiu para que se travasse a luta. Deu-se então a batalha de Almanza a 25 de Abril de 1707, em que ficou vencedor o partido de Filipe V. O marquês das Minas deixou sob o comando do conde de Atalaia um pequeno exército português agregado ás tropas inglesas, e veio para Portugal. A guerra daí em diante foi apenas uma série de combates de pouco valor nas fronteiras, sendo o facto mais importante a defesa de Campo Maior, em 1711, ultima façanha da guerra da Sucessão de Espanha, em que Portugal se envolvera: A guerra expôs à perseguição dos franceses a nossa marinha e as nossas colónias. Em 1710 organizou-se em Brest uma pequena esquadra para atacar o Rio de Janeiro, mas o comandante, Mr. du Clerc, ficou derrotado caindo em poder dos portugueses. Esta notícia causou a maior satisfação em Lisboa, e celebrou-se um solene Te-Deum na capela real a que assistiu el-rei e toda a régia família. No ano seguinte, 1711, uma outra esquadra, comandada pelo célebre marítimo Du Guay-Trouin, veio atacar o Rio de Janeiro, e vingou cruelmente o desastre do seu compatriota du Clerc, apesar da forte resistência, oposta pelo governador Francisco de Castro de Morais. A cidade foi posta a saque. Finalmente, em 1715 assinou-se o tratado de Utrecht entre as diversas potências beligerantes, que trouxe a paz à Europa. Nesta luta foi Portugal que menos aproveitou, porque nenhumas compensações obteve por tantos e tão cruéis sacrifícios.

Enquanto durara a guerra com a Espanha e a França, deu se o casamento de el-rei D. João V com a arquiduques D. Maria Ana de Áustria, filha do imperador Leopoldo, irmã do imperador José, então reinante, e do imperador Carlos VI. Foram assombrosas as solenidades que se realizaram em Viena e depois em Lisboa à chegada da nossa rainha. O conde de Vilar Maior, Fernando Teles da Silva, foi encarregado, como embaixador extraordinário, de ir pedir em casamento a arquiduquesa. O embaixador chegou a Viena a 21 de Fevereiro de 1705, e antes de fazer a sua entrada. pública, recebeu audiência particular do imperador, da imperatriz sua mulher e da imperatriz viúva; dias depois também lhe foi concedida audiência das arquiduquesas. A entrada oficial demorou-se algum tempo, porque o embaixador português esperava que de Holanda lhe chegassem alguns coches e cavalos, que deviam figurar no acto solene. No dia 7 de Junho é que se realizou a imponente cerimónia da apresentação. O conde de Vilar Maior saiu de Inzerstorff, para onde partira na véspera, e entrou em Viena com todo o aparato; aí o esperava o conde Waldestein, marechal da corte, o qual o conduziu com dois coches do imperador, e mais 42, tirados a seis cavalos, mandados pelos cavalheiros principais da corte com os seus gentis-homens. 0 cortejo era imponente; passou pelo paço da Favorita, em cujas janelas se viam o imperador José, as imperatrizes e as arquiduquesas, e seguiu até ao palácio do embaixador português. No dia seguinte, o conde Gundacharo Poppone de Dietrichstein, com os mesmos dois coches do imperador, foi buscar o conde de Vilar Maior, Fernando Teles da Silva, para a conduzir ao paço da Favorita, à audiência pública dos imperadores reinantes, e pouco depois ao paço de Viena, onde também foi recebido em audiência pela imperatriz viúva e pelas arquiduquesas. No dia 21 de Junho é que no paço da Favorita, em solene audiência foi pedida em casamento a arquiduquesa D. Maria Ana, em nome de el-rei de Portugal D. João V. Repetiu-se depois a mesma cerimónia no paço da imperatriz viúva. O embaixador entregou à futura rainha o retrato de D. João V, guarnecido de diamantes de grande valor. Neste mesmo dia se assinou o contrato de casamento. À noite houve baile no Paço, e no dia seguinte realizou-se no palácio do embaixador um magnífico cortejo, a que assistiu toda a corte austríaca. Em 9 de Julho efectuou-se a cerimónia nupcial, sendo o imperador quem recebeu a rainha por procuração do rei de Portugal; foi celebrante o cardeal de Saxónia Zeits, a quem o conde embaixador presenteou com um dos seus coches, tirado a seis cavalos, presenteando também com diversas dádivas todos os demais capelães que assistiram à solenidade. Na viagem para Portugal tocou em diversos portos, realizando-se sempre pomposas festas, até que em 26 de Outubro chegou a Lisboa, onde teve uma imponentíssima recepção. No paço da Ribeira houve serenatas e músicas. No Terreiro do Paço queimaram-se fogos de artifício, e armou-se um anfiteatro, onde em três tardes sucessivas se realizaram corridas de touros. No dia 22 de Dezembro, seguidas dum pomposo cortejo, foram as pessoas reais e toda a corte à Sé, onde se cantou um solene Te-Deum. No Anno Histórico do Padre Francisco de Santa Maria, vol. II, pág 334 e seguintes, vêem minuciosamente descritas as esplêndidas festas, os deslumbrantes cortejos e cerimónias, que se realizaram em Viena de Áustria e em Lisboa, assim como a descrição do dote da rainha. do contrato do casamento, e de muitas ofertas feitas pelo imperador da Áustria às pessoas que compunham a embaixada portuguesa.

Em Lisboa houve por esta época uma notável contenda com os embaixadores das principais potências, que insistiam para terem umas franquias incompatíveis com o regular andamento da justiça. D. João V foi sempre muito enérgico em todas estas contendas com os ministros estrangeiros, mantendo as prerrogativas da Coroa e as preeminências marcadas pela etiqueta com a mais severa austeridade. Também pode dizer-se que em poucas épocas teve Portugal diplomatas tão hábeis como no tempo de. D. João V, em que se encontram os nomes de D. Luís da Cunha, Diogo de Mendonça Corte Real e de Alexandre de Gusmão. O monarca era extremamente devoto, e dessa exagerada devoção resultou intervir Portugal numa guerra entre o papa, os venezianos e os turcos. Em 1716 enviou em socorro do papa uma luzida esquadra, comandada pelo conde do Rio Grande, que tomou parte na gloriosa vitória do cabo Matapan, mas que sobrecarregou a fazenda com uma despesa enorme. Descuidava das causas urgentes do país, e despendia largas e fabulosas somas com a cúria romana, com igrejas e monumentos religiosos. Construiu o grandioso convento de Mafra que custou 120 milhões de cruzados; a capela de S. João Baptista na igreja de S. Roque, obra riquíssima que se construiu em Roma pelo desenho de Vanvitelli, e enquanto se não concluiu, D. João V mandava repetidas vezes importantes quantias exigidas pelo papa, então Benedito XIV. Em 1744 ficou pronta a capela, que se armou dentro da igreja de S. Pedro, e depois de sagrada em 15 de Dezembro do referido ano, o papa oficiou de pontifical. El-rei, por esta distinção feita à sua devota capela, presenteou o pontífice com 100.000 cruzados. Em 1746 foi toda desarmada e cuidadosamente encaixotada, transportando-se assim para Lisboa, sendo acompanhada por alguns dos artistas que tinham trabalhado na obra e do escultor afamado Alexandre Giusti, que nunca mais abandonou Portugal. Quando a capela chegou a Lisboa, achava-se D. João V gravemente doente, e já não pôde ver realizada a sua monumental obra, porque faleceu pouco tempo depois. A capela somente se colocou em S. Roque já no reinado de D. José, em 13 de Janeiro de 1751. No vol. XI do Gabinete Historico, de Fr. Cláudio da Conceição, vem descrita a história da capela de S. João Baptista na igreja de S. Roque e de todas as suas grandiosas riquezas.

D. João V engrandeceu bizarramente a capela real que ele elevou a uma sumptuosa patriarcal com um numeroso cabido, musicas e cantores. (V. Patriarcal). Dividiu Lisboa em duas partes: Lisboa Oriental e Lisboa Ocidental; a primeira metropolitana e a segunda patriarcal. As negociações para a concessão desta igreja custaram também importantíssimas somas, que se enviaram à Cúria romana; conseguiu igualmente do Papa a 22 de Dezembro de 1748, a troco de grandes dádivas, a denominação de rei fidelíssimo para si e para os seus descendentes, considerando assim como a maior glória da sua raça o ter sido sempre fiel à Santa Sé. As prodigalidades deste monarca eram extraordinárias; enriqueceu os conventos, deu dinheiro ilimitado aos fidalgos; nos últimos anos da sua vida mandou rezar para cima de 700.000 missas; por urna imagem que o papa benzeu, de prata dourada, deu 120.000 cruzados; para Jerusalém mandou 1.377 cruzados; fundou o convento do Louriçal dotando-o com 6.000 cruzados, e deu-lhe muitas alfaias e pratas; ceou dois bispados no Brasil; mandou para diferentes igrejas do estrangeiro alfaias e adornos de incalculável valor; em indulgências e canonizações enviou para Roma perto de 1,38 milhões de cruzados; na missão que foi a Roma assistir a um conclave gastou-se para cima de dois milhões de cruzados; ao núncio Bichi, quando se retirou de Lisboa, mandou dar-lhe 1.000 moedas para ajuda da viagem; ao cardeal Oddi deu-lhe uma caixa de brilhantes no valor de 20.000 cruzados, etc. Apesar da sua exagerada devoção, não tinha escrúpulo em profanar a clausura das virgens do Senhor, o que lhe adquiriu o titulo de rei freirático, transformando, por exemplo, o convento de Odivelas, sustentando escandalosamente os seus amores com a madre Paula, freira sua predilecta.

O que bastante ilustra este reinado foi a edificação do Aqueduto das Aguas Livres, melhoramento de grande importância (V. Águas Livres, aqueduto das), e a fundação da Academia Real da História Portuguesa, pelo decreto de 8 de Dezembro de 1720. Esta Academia tinha por fim escrever a história eclesiástica destes reinos, e depois tudo o que pertencesse à história deles e de suas conquistas. (V. Academia Real da História Portuguesa). Também neste reinado se deu muita atenção aos estudos de cirurgia; em 1715 foi impressa a tradução da Cirurgia de Le Clerc; em Abril de 1731 estabeleceu-se no hospital real de Todos os Santos uma escola cirúrgica, dando as lições Isaac Eliot com cirurgiões de partido, aos quais el-rei assignou o vencimento de um tostão por dia. No Porto estabeleceu-se em 1746 a Academia Cirúrgica Protótipo‑Lusitânica Portuense (V. este nome), cujos estatutos foram aprovados por D. João V. Na Historia dos Estabelecimentos scientificos, litterarios e artisticos, de José Silvestre Ribeiro, vol, I, pág. 174 e seguintes, encontram-se notícias circunstanciadas acerca desta academia. D. João V tinha constante desvelo em favorecer os autores pobres, habilitando-os a publicar os seus escritos, que sem a protecção do monarca, ficariam por imprimir. Se alguma obra lhe era indicada como excelente, e já rara, não hesitava em a mandar reimprimir. Foi assim que se publicou a Historia Genealogica da Casa Real Portugueza, por D. António Caetano de Sousa; O Vocabulario portuguez e latino de Bluteau; o Corpus poetarum lusitanorum, do padre António dos Reis, e outras muitas obras. Reuniu, com grande dispêndio, uma rica livraria no seu palácio, bem como numerosos e interessantes objectos de estudo. D. António Caetano de Sousa dá curiosas notícias a este respeito: «Assim tem, diz ele, uma numerosa e admirável livraria, que se vêem as edições mais raras, grande número de manuscritos, instrumentos matemáticos, admiráveis relógios, e muitas outras coisas raras que ocupam muitas casas e gabinetes. Não havia no Paço mais que um pequeno resto da Livraria antiga da Sereníssima Casa de Bragança: El-rei o fez colocar em esta Real biblioteca, que se compõe de muitos mil volumes, que quase não cabem no grande edifício chamado o Forte.» Determinou ao seu enviado junto à Santa Sé, Manuel Pereira de Sampaio, que formasse uma colecção de tudo quanto pudesse descobrir nas bibliotecas da Cúria Romana, que dissesse respeito à história do reino. Do cumprimento desta ordem proveio talvez a colecção que tem o título de Symmicta Lusitanica, que existe na Biblioteca Real da Ajuda, excedente a 200 volumes. A Sebastião José de Carvalho, quando foi ministro plenipotenciário na Grã-Bretanha, ordenou que reunisse uma colecção de bíblias hebraicas, e de tudo quanto pertencesse a seus ritos, leis, costumes e polícia, em qualquer das línguas vivas. Aquela preciosa colecção chegou a Lisboa no ano de 1743. Por este tempo foi Martim de Mendonça nomeado bibliotecário de el-rei e adiantou este ramo de erudição, mandando vir obras da mesma natureza na língua original, em que era muito versado. Para aumentar a Biblioteca Real sustentou o soberano muitos amanuenses fora do país por alguns anos. Para o mesmo fim fez comprar diversas colecções de livros, tiveram ordem os livreiros Gendeon e Reycend de mandar vir os que pudessem alcançar. Destes livros repartiu el-rei com as bibliotecas das Necessidades e de Mafra, por sua ordem se abriram nesta última casa, em Janeiro de 1731, escolas públicas, com sete cadeiras. Em Outubro deste mesmo ano chamar a Lisboa Martim de Pina de Proença, para formar o catálogo da livraria real, na ocasião em que tinham chegado 20.000 volumes. A Universidade de Coimbra não possuía uma casa competente para acomodação duma livraria. 0 reitor Nuno da Silva Telles solicitou e obteve do soberano a permissão de construir um bom edifício. A provisão régia, que deu esta licença, tem a data do de 31 de Outubro de 1716. A casa da livraria veio a concluir-se, sendo reitor Francisco Carneiro de Figueiroa. D. João V, também elevou a 100$000 réis anuais a verba de 40$000 réis, que a Universidade tinha para a compra de livros. Promoveu os estudos militares, mandando traduzir e imprimir algumas obras de fortificação e artilharia; Assistindo a actos solenes dos exames de tais disciplinas, e decretando em 24 de Dezembro de 1732, que, além da Academia Militar estabelecida na corte, e a da praça de Viana do Minho, se estabelecessem outras academias militares: uma na praça de Elvas e outra na de Almeida. Em 1713 já o monarca havia mandado traduzir e imprimir a Fortificação Moderna, de Pfeffinger. Foi protector e académico, com o título de Pastor Albano, da Academia dos Árcades, de Roma, e ali comprou um sítio em que se estabeleceu a Academia, para se realizarem as suas assembleias. Sobre a porta do edifício está, colocada uma inscrição latina. Esta Arcádia fora fundada em 1690 por alguns poetas célebres. Mandando D. João V vir par a sua igreja patriarcal músicos e cantores italianos, começou em Portugal a influencia da musica italiana.

As solenidades que se realizavam naquele sumptuoso templo, eram imponentes, executadas por um coro de 70 cantores, muitos deles escolhidos entre os melhores que se podia encontrar em Itália, dirigidos pelos professores Scarlatti, João Jorge, Jomelli e David Peres, os mais eminentes mestres então conhecidos no referido país. D. João V também mandou vir de Roma cantocanistas e liturgistas, enviando para aquela cidade a estudar alguns pensionistas. De todos os livros do coro usados no Vaticano, mandou tirar cópias para servirem na sua real capela, em observância rigorosa do uso e ritual pontifício. D. João V também prezava a música profana. Os saraus do Paço eram frequentemente entretidos com peças teatrais ornadas de música. As mais antigas representações neste género, de que há notícias, são as festas realizadas em 1711, 1712 e 1713 nos dias dos anos do rei e da rainha. Em 1733 um violinista italiano ao serviço do Paço, Alexandre Paghetti, obteve privilégio para dar representações públicas de óperas no teatro armado junto ao convento da Trindade, em que se cantaram algumas óperas nos anos de 1737 e 1738. No teatro da Rua dos Condes também se cantaram em 1738, 1739 e 1740. D. João V mandou construir um teatro no palácio de Belém, que tinha comprado em 1726 ao conde de Aveiras, e foi este o primeiro teatro régio especialmente construído para esse fim, inaugurando-se a 4 de Novembro de 1739, o monarca instituiu um seminário destinado ao ensino especial da música, organizado à semelhança do de Vila Viçosa, e cujas despesas eram pagas pelas rendas da Capela Real. Tem a data de 9 de Abril de 1713 o decreto que fundou este novo seminário de música, o qual começou logo a funcionar no antigo paço dos arcebispos; pouco depois, para ter mais largueza, foi transferido para o convento de S. Francisco.

Em 1729, D. João V casou seu filho, o príncipe D. José, com a princesa espanhola D. Mariana Vitoria, e sua filha, D. Maria Bárbara, com o príncipe das Astúrias, D. Fernando, que depois foi Fernando VI, rei de Espanha. A troca das duas princesas efectuou-se na presença dos dois soberanos das duas cortes, num pavilhão que se ergueu na ponte sobre o rio Caia, exactamente na fronteira dos dois estados, fazendo-se tudo com extraordinária pompa. Em 1742 foi o monarca atingido pelo primeiro ataque de paralisia. Reconhecendo o seu estado melindroso, dedicou-se a Deus, temendo a morte que o esperava. Os frades estimulavam-lhe o fervor religioso, e os físicos lhe aconselhavam o emprego das águas das Caldas da Rainha. D. João V utilizou efectivamente estas águas, acompanhando o tratamento com exercícios devotos e muitas rezas. Fez treze jornadas às Caldas, seguido de frades e de freiras. Em 1717 ordenou que o hospital fosse refundido, ficando as obras concluídas em 1750. Em Julho deste ano piorou consideravelmente, e foi sacramentado. Os frades foram chamados, recitaram-se salmos e jaculatórias, e o núncio veio administrar-lhe o sacramento da extrema unção. 0 rei expirou pouco depois, tendo a seu lado a rainha, o príncipe D. José, os infantes D. Pedro e D. António, o cardeal da Cunha e os médicos da corte.

Assim terminou o rei D. João V, deixando pobre o país pelas suas prodigalidades e desperdícios. Deixou também três filhos bastardos, D. António, D. Gaspar e D. José, conhecidos pelos Meninos de Palhavã. Acerca deste monarca escreveu Rebelo da Silva o interessante romance A Mocidade de D. João V. Das amantes fala-se nos seguintes livros: A Caveira da martyr, de Camilo Castelo Branco; 0 mosteiro de Odivellas, de Borges de Figueiredo; As minhas queridas freirinhas de Odivellas, de Bernardes Branco; As amantes de D. João V, de Alberto Pimentel; A Madre Paula, de Rocha Martins. 0 Sr. Artur Lobo de Ávila publicou recentemente no Diário de Notícias um novo romance histórico, com o título de 0 Rei magnífico.

22
Jun
08

Passos Manuel

Passos (Manuel da Silva).

n.   5 de Janeiro de 1801.
f.   16 de Janeiro de 1862.

Um dos vultos mais proeminentes das lutas liberais; bacharel formado em Leis pela Universidade de Coimbra; advogado, deputado em diversas legislaturas, par do reino, ministro de Estado, etc. N. na freguesia de S. Martinho, de Guifões, concelho de Bouças, distrito do Porto, a 5 de Janeiro de 1801, fal. em Santarém a 16 de Janeiro de 1862. Era irmão mais novo de José da Silva Passos (V.o artigo antecedente).

Ambos os irmãos começaram desde muito novos a manifestar uma inteligência notável, e seus pais, lavradores pouco abastados, reconhecendo que o melhor legado que poderiam deixar-lhes, era a instrução, empregaram todos os possíveis esforços para que recebessem uma boa educação literária. Depois de frequentarem os estudos menores, como então se dizia, os dois irmãos foram para a Universidade. de Coimbra, e matricularam se em 1817, destinando-se Manuel Passos à faculdade de Leis. Muitos portugueses andavam influenciados pelas ideias republicanas que se haviam desenvolvido na França, e Portugal sofrendo também terríveis consequências dessas ideias, havia suportado três invasões, e, visto com desgosto o abandono da família real, que se refugiara no Brasil, apenas se dera a primeira invasão. Manuel Passos, e José Passos, mais velho do que ele e companheiro inseparável das suas fadigas e infortúnios, preocupados com o estudo, estimulados nos brios pela honrosa competência das lides intelectuais, cursavam as aulas, quando a revolução de 1820 os veio surpreender, abrasando-lhes o entusiasmo, e despertando-os para a realidade dumas ideias liberais tão conhecidas nos seus sonhos de imaginação ardente e exaltada. Manuel Passos prosseguia o curso com tanta distinção, que recebia um prémio pecuniário de 40$000 reis, vindo a formar-se em 1822.

Com o entusiasmo pelas ideias liberais, fundou em Coimbra em 1823, com seu irmão, o jornal Amigo do Povo, que pouco depois acabou por ter triunfado a reacção nesse mesmo ano de 1823. Manuel Passos foi então para o Porto, e matriculou-se como advogado de número da Relação e Casa do Porto, exercendo a advocacia, e entregando-se aos seus estudos literários predilectos, até que em 1828, tendo tomado parte na insurreição de 16 de Maio tentada contra o governo de D. Miguel, depois do golpe de Estado que este dera em Lisboa restabelecendo a monarquia absoluta, viu-se obrigado a emigrar nesse mesmo ano com seu irmão e outros para a Corunha, partindo dali para Plymouth, onde estava a 26 de Setembro de 1828, porque é essa a data dum soneto escrito por ele com o pseudónimo de Almeno Damoeta, e por ele dirigido à rainha D. Maria lI. Algum tempo se demorou em Inglaterra, seguindo depois para a Bélgica, e daí para França. Foi aqui que se relacionou, parece que intimamente, com Saldanha, a quem dirigiu um soneto laudatório com o referido pseudónimo, e em Paris publicou dois Memoriaes sobre o estado do país e sobre a necessidade de destruir o governo de D. Miguel e de restabelecer o trono da rainha D. Maria II, um opúsculo intitulado Breve razoamento a favor da liberdade lusitana e um Exame de algumas opiniões e doutrinas de Filipe Ferreira de Araújo e Castro e de Silvestre Pinheiro Ferreira. Todos estes opúsculos começaram a dar uma certa notoriedade ao seu nome; mas uma pendência grave que se levantou entre o ministro da guerra liberal Cândido José Xavier e o coronel Rodrigo Pizarro, deu origem a que os dois irmãos Passos emitissem a sua opinião sobre o assunto num opúsculo impresso em Paris em 1832, e intitulado Parecer de dois advogados da casa do Porto, etc. Também os dois irmãos, reunidos em Paris, e nesse mesmo anuo, publicaram em português e francês uma resposta a umas acusações formuladas pelo Times contra o duque de Saldanha. Tudo isto foi dando aos dois irmãos reputação e prestígio.

Segundo as melhores informações, Manuel da Silva Passos, regressou ao Porto., quando já estava restabelecido o regime constitucional, e logo em 1834, nas primeiras cortes de deputados que se constituiriam, foi eleito por uma das divisões eleitorais do norte. Parecia talhada para o seu talento parlamentar a questão da Regência, que então surgia cravada de dificuldades e cercada de perigos. D. Pedro havia a assumido ditatorialmente, e Manuel Passos entendia que, segundo a Carta Constitucional, não a podia ele exercer. Logo nas primeiras palavras que pronunciou, se reconheceu que estava ali um orador admirável com todo o fogo da palavra tribunícia, e ao mesmo tempo com toda a urbanidade da palavra académica; tratava com toda a consideração e respeito o homem que prestara tão relevantes serviços à causa da Liberdade, mas punha acima de todas as considerações o respeito da lei: Um bom principio, dizia ele, vale mais do que um homem, e foi essa a norma constante da sua austera vida politica. Manuel Passos, ou Passos Manuel, como então lhe começaram a chamar para o distinguirem de seu irmão José Passos, começou desde logo a inspirar vivas simpatias aos próprios inimigos, e ardente entusiasmo aos correligionários. Numa outra questão levantou Manuel Passos a sua voz no mesmo dia em que se estreava um outro orador notável, que tinha de ser muitas vezes seu adversário político, mas sempre amigo pessoal, Rodrigo da Fonseca Magalhães. Nunca Manuel Passos subira tão alto como nesse pleito da lei de indemnizações, que se pretendia arrancar aos bens dos vencidos o necessário para indemnizar as vítimas do regime anterior. Era mentir ás tradições generosas do partido liberal, era arrolar para satisfazer vindictas e caprichos de momento, os grandes princípios do novo regime. Manuel Passos protestou energicamente contra esse facto, e foi verdadeiramente eloquente. Nessa primeira câmara de 1834, fazendo sempre oposição ao ministério conhecido pelo nome de ministério dos devoristas, e aos que se lhe seguiram, e que trilharam um pouco a mesma senda, Manuel Passos granjeou uma grande reputação de orador; de todos os homens novos postos em evidência pela eleição de 1834, era ele quem se mostrava mais conhecedor dos negócios, o parlamentar mais brilhante, o democrata mais ardente, sem perder as suas grandes qualidades de urbanidade e cortesia. Entretanto sucediam-se os ministérios uns aos outros, e sem estabilidade nem firmeza, praticavam erros sobre erros. O primeiro ministério da rainha, presidido pelo duque de Palmela, caíra diante das acusações da opinião, e fora substituído primeiro pelo ministério de transição do conde de Linhares, e afinal pelo ministério Saldanha, que caiu principalmente em consequência do descontentamento produzido pela expedição de Espanha. Sucedeu-lhe o ministério José Jorge Loureiro, que caiu em consequência da atitude indecisa que adoptou na questão da nomeação do rei D. Fernando para comandante em chefe do exército. Foi o ministério seguinte, presidido pelo duque da Terceira, que resolveu a questão nomeando D. Fernando para o lugar de que se tratava. Este acto, porém, e outros do ministério, levantaram grande agitação entre os membros do partido avançado, que tomou em todo o reino uma atitude decidida.

Em Lisboa, o Clube dos Camilos, assim chamado por celebrar as suas sessões no antigo convento dos Camilos, tocava as raias da demagogia exaltada. O ministério que tinha pouca confiança nas câmaras, dissolveu-as, e isso ainda mais exacerbou o país. Contudo, as eleições foram favoráveis ao governo em toda a parte, excepto em dois distritos, o do Porto e o de Viseu. As novas câmaras tinham sido convocadas para 5 de Agosto, o governo adiou-as para 11 de Setembro. No dia 9 deste mes desembarcaram em Lisboa os deputados vindos do Porto. Recebidos com o mais vivo entusiasmo, a ovação que se lhes fez, tomou o carácter duma manifestação politica. Nesse mesmo dia a guarda nacional pegou em armas, capitaneada por Fernando Soares Caldeira, e proclamou a constituição de 1822 com as modificações que as cortes lhe introduzissem. As tropas de linha, enviadas para sufocar este movimento, fraternizaram com a guarda nacional. Com este movimento estava feita a revolução popular de 9 de Setembro de 1836, conhecida pelo nome de revolução de Setembro. A rainha, obrigada a ceder a um movimento que não pudera reprimir, chamou em 10 de Setembro aos seus conselhos os homens que representavam a opinião predominante. Esses homens, presididos pelo conde de Linhares, que também ficou com a pasta da guerra, foram: Vieira de Castro, ministro da justiça; visconde de Sá da Bandeira, da fazenda e interino dos estrangeiros; Vasconcelos Correia, da marinha; e Passos Manuel, do reino. Este ministério tinha forçosamente de assumir a ditadura. Assumiu-a tratando ao mesmo tempo de convocar imediatamente cortes constituintes. Passos Manuel, como ministro do reino, começou logo a tratar da instrução pública. Pelo decreto de 18 de Novembro de 1836, criou em Lisboa um depósito geral de máquinas, modelos, utensílios, desenhos, descrições, e livros relativos ás diferentes artes e ofícios, com a denominação de Conservatório das Artes e Ofícios, e com o fim principal de promover a instrução prática em todos os processos industriais por meio da imitação. Por decreto de 5 de Janeiro de 1837 foi criado no Porto um deposito geral com a designação de Conservatório Portuense de Artes e Ofícios, com o mesmo fim, método de organização, administração e regulamento que o de Lisboa. Foi também Passos Manuel quem fundou a Academia de Belas Artes; foi ele quem referendou os três decretos de 25 de Outubro de 1836, todos relativos à Academia. O 1.º daqueles decretos teve por fim criar a Academia; o 2.º, colocá-la numa parte do edifício do extinto convento de S. Francisco da Cidade, onde ainda hoje existe, e criou uma biblioteca especial de Belas artes no mesmo edifício; o 3.º nomeou para os. diversos empregos da academia as pessoas constantes duma relação que acompanhava o mesmo decreto A academia ficava sob a protecção imediata da rainha D. Maria II e do rei D. Fernando. Nesse mesmo ano de 1836, também por iniciativa do distinto ministro do reino, se criou a Casa Pia, de Évora, por decreto de 27 de Outubro. Por decreto de 12 de Janeiro de 1837, referendado pelos ministros Passos Manuel e visconde de Sá da Bandeira, foi criada uma Casa Pia, com a denominação de Asilo Rural Militar, destinada exclusivamente para recolher, alimentar, e educar 80 alunos, filhos de praças de pré do exército. O asilo ficaria assente no edifício do extinto convento do Varatojo, aplicando-se-lhe também a respectiva cerca, e uma porção de terreno não muito distante do estabelecimento. Em 28 de Setembro de 1836, Manuel da Silva Passos encarregou Almeida Garrett de elaborar e propor ao governo um plano para a fundação e organização do Teatro Nacional de Lisboa, devendo ao mesmo tempo informar acerca das providencias necessárias para efectuar melhoramentos possíveis nos teatros existentes. Do plano elaborado por Almeida Garrett resultou o decreto de 15 de Novembro criando a Inspecção-geral de teatros, e simultaneamente estabelecendo um Conservatório Geral da. Arte Dramática. Por decreto de 29 de Dezembro de 1836 deu uma nova e radical organização ás escolas de cirurgia de Lisboa e Porto, dando-lhes a denominação de escolas médico-cirúrgicas de Lisboa e Porto. Também na fecundíssima ditadura de Passos Manuel, se fundou em Janeiro de 1837 a Academia Politécnica do Porto em substituição da antiga Academia Real de Marinha; transformou os estudos da Universidade, formou um novo plano para as escolas de instrução primária, recomendou a criação de associações agrícolas, fabris e industrias nas terras mais importantes do reino. Este ministério estava no poder havia apenas dois meses quando rebentou o movimento da Belenzada (V. Portugal, vol. II, pag. 263 e seguintes) A rainha retirou-se para Belém, demitiu o ministério, organizou outro gabinete, e fez proclamar nos arredores do Paço a restauração da Carta Constitucional. Conhecedor do que se passava, Passos Manuel tratou logo de ver quais eram os sentimentos da guarda nacional, e achou-a pronta a acompanhá-lo. A tropa de linha; que estava em Lisboa, mantivera-se fiel também ao ministério; Manuel Passos e os seus amigos não aceitaram as suas demissões. Em presença desta atitude, a rainha desanimou, voltou para Lisboa, e continuou a funcionar o regime estabelecido. Não fora essa a primeira tentativa de reacção contra o ministério setembrista.

Logo no dia 18 de Setembro tinham protestado contra a revolução 27 membros da câmara alta. No dia 5 de Outubro constava ao novo governo que o batalhão de caçadores n.º 5 queria fazer a contra-revolução, o batalhão foi mandado para o Algarve combater o Remexido, e como o chefe cartista Gomes parecia operar de acordo com o guerrilheiro português, e podia por conseguinte a sua união acarretar sérios perigos, após caçadores n.º 5 marchou para o sul do rio Tejo uma divisão comandada pelo barão de Bonfim. O movimento da Belenzada malogrou-se, além de muitas outras causas, pela intervenção dos marinheiros ingleses que desembarcaram, diziam eles, com o fim de proteger a rainha, o que irritou profundamente os próprios cartistas. Foi Manuel Passos quem primeiro protestou, e com toda a energia, contra a intervenção inglesa, mais ou menos disfarçada. Estava detido em Belém, onde a rainha o mandara chamar. Esse simulacro de contra revolução durou pouco tempo. A 5 de Novembro a rainha nomeava presidente do conselho de ministros o visconde de Sá da Bandeira, que ceamos logo para seu lado Vieira de Castro e Passos Manuel. Até 1 de Junho do 1837 se dilatou esta situação, em que Manuel Passos tinha a seu cargo, ora alternada, ora simultaneamente, as pastas do reino, da fazenda e da justiça. Além das grandes medidas já citadas, Passos Manuel resolveu, refundir, mais ainda, criou o nosso sistema tributário. Deu ás alfandegas do reino a pauta de 10 de Janeiro de 1837, da qual procedem todas as que depois dela tem sido decretadas, e libertou assim para uma vida nova o comércio, que estava ainda sujeito à pauta aduaneira de 14 de Fevereiro de 1782. Em 31 de Dezembro de 1836 promulgou um Código administrativo, em que também colaborou seu irmão José; nesse trabalho havia excelentes disposições. Tratou também o notável ministro de providenciar com relação ao modo de facilitar aos devedores à fazenda o pagamento dos seus débitos sem prejuízo do tesouro, e a respeito da exportação dos vinhos do Douro, da redução de tenças e de pensões, da extinção do papel moeda. Alguns dos relatórios que precedem estes decretos são verdadeiras obras-primas. As cortes constituintes, convocadas no dia 12 de Outubro de 1836, só vieram a reunir-se no dia 18 de Janeiro de 1837. As reformas de Passos Manuel, reformas a que se deve acrescentar outra importantíssima, a criação do registo hipotecário, tinham levantado muitos atritos. O ministério contava agora um grande número de inimigos, até nas fileiras dos avançados. Foi um deles José Estêvão, que se estreou na tribuna, combatendo o ministério de 5 de Novembro. Todos consideravam perfeitamente transitórias e efémeras as reformas de Passos Manuel, muitas das quais ainda se têm conservado, atestando pelos seus imensos resultados a sensatez do legislador; Passo Manuel, porém, já estava cansado das intrigas miseráveis da política, e aproveitou o primeiro ensejo que teve para sair do ministério. A 5 de Abril começara a discutir-se a Constituição; em Maio discutia-se a criação dos lugares de secretários de Estado, proposta. por Passos Manuel, e rejeitada pela câmara. Era o dia 10 de Maio de 1837; nesse mesmo dia Passos Manuel e os seus amigos pediram a demissão, e nunca mais esse estadista voltou a ocupar as cadeiras do poder. Recolhendo-se à vida privada, acompanhou lealmente os seus amigos, sem despertar a cólera dos inimigos.

A Constituição acabou de se discutir e promulgou-se, e Passos Manuel foi eleito senador. Na câmara alta pronunciou alguns discursos muito notáveis, mas persistiu em se abster de entrar na parte verdadeiramente política dos debates. Depois da contra-revolução do Porto, em 1842, que deu em resultado o restabelecimento da Carta Constitucional; e sendo extinta a câmara dos senadores, Passos Manuel foi reeleito deputado, e assentou-se nos bancos da oposição. No entretanto, poucas vezes apareceu na câmara, e poucas vezes também usou da palavra. Estava completamente entregue ás suas ocupações agrícolas; tornara-se lavrador no Ribatejo, e entregava-se com entusiasmo aos cuidados da lavoura. O seu nome adquirira por isso mesmo um extraordinário prestígio. Esse homem que atravessara o poder sem se demorar, e que deixara, contudo, um rasto brilhantíssimo da sua passagem; que servira sempre desinteressadamente o seu pais, que dele não recebera nem honras, nem empregos, nem benefícios, que se mostrara sempre liberal sincero, patriota ardente, que ligara o seu nome à ditadura mais brilhante da história portuguesa, a uma série de fundações notáveis, e que nunca entrara nas lutas mesquinhas da politica, que nunca se metera nas suas intrigas, que tivera o mais constante e o mais nobre desprendimento, a mais nobre altivez de animo, que falara alto aos reis nos seus paços, e quando eles tinham por si a força e a vontade de a empregar, que nunca lisonjeara baixamente o povo, que fora levantado ao poder por uma revolução que ele não provocara, e que o levantara nos escudos como ao mais digno, cuja palavra se levantara sempre a favor das causas sagradas da liberdade e da tolerância, e que depois de tudo isso fora entregar-se tranquilamente aos modestos trabalhos da agricultura, adquirira no país um prestigio verdadeiramente extraordinário.

Em 1844, quando se malogrou a revolta de Torres Novas, que foi morrer em Almeirim, Passos Manuel ergueu a voz para protestar contra a repressão violenta a que recorrera o partido vencedor e contra as vinganças a que se deixara arrastar. Nesse discurso há frases imortais, que deviam ainda hoje ser meditadas por todos que lidam na política. Infelizmente, Passos Manuel voltou ao seu silêncio habitual e à sua vida de lavrador. As eleições de 1845, tristemente célebres, irritaram profundamente o país, já fatigado do governo opressor do conde de Tomar, e na primavera de 1846 rebentou a revolução do Minho, conhecida pela Maria da Fonte. A rainha sentiu que a situação era grave e demitiu o ministério que assim sublevara a opinião. Já a esse tempo se organizavam por toda a parte juntas incumbidas de auxiliar o movimento do norte, Os descontentes do distrito de Santarém agruparam-se em torno do simpático vulto de Passos Manuel. Não podia este, nem queria entrar no ministério. Mousinho de Albuquerque, ministro do reino, pediu-lhe para aceitar o cargo de governador civil de Santarém, cargo que podia exercer, quase sem sair de casa. Passo Manuel aceitou. Ao mesmo tempo era proposto deputado pelo Porto, mas nem chegou a ser eleito, nem pôde ser por muito tempo governador civil, porque a 6 de Outubro dava a rainha o golpe de Estado celebre dessa data, a notícia transmitida para o Porto fazia com que rebentasse a revolução, cuja alma foi desde logo José Passos, o irmão enérgico de Passos Manuel. Parecia natural que a Passos Manuel pertencesse a direcção suprema, ele, porém, não desejava senão viver obscuro. Esteve sempre durante a revolução ao lado da Junta do Porto, combatendo, porém, como voluntário, sem ambições de poder nem de brilho. Auxiliou muito a Junta, e quando esta ficou definitivamente vencida, voltou à tranquilidade do seu viver doméstico. Depois da convenção de Gramido, em 1847, não voltou, nem tentou voltar à câmara. Dando se o movimento da Regeneração, em 1851, tornou a ser eleito deputado, sendo reeleito em outras legislaturas até 1858, mas poucas vezes tomou a palavra, e em muitas sessões não compareceu por falta de saúde. Por carta régia de 17 de Maio de 1861 foi eleito par do reino, mas não chegou a tomar assento na câmara alta. No anuo seguinte falecia em Santarém, causando a sua morte a mais profunda consternação. Quando a noticia foi sabida em Lisboa, a câmara dos deputados, que estava reunida, lançou na acta um voto de sentimento pela morte do grande liberal, e por proposta de Mendes Leal, determinou que na sala da biblioteca da câmara, fundada pelo eminente tribuno, se colocasse o seu busto. Anos depois, os seus patrícios do concelho de Bouças lhe erigiram uma estátua na alameda de Leça.

Manuel da Silva Passos havia casado a 28 de Dezembro de 1838 com D. Gervásia de Sousa Falcão, filha de João de Sousa Falcão, e de sua mulher D. Maria Xavier Farinha Falcão. Deste consórcio houve duas filhas: D. Beatriz de Passos Manuel, que teve o titulo de viscondessa de Passos, em atenção aos serviços de seu pai; e D. Antónia de Passos Manuel, que casou com Pedro de Sousa Canavarro, neto do 1.º barão de Arcossô.

Bibliografia: Memorial sobre a necessidade e meios de destruir promptamente o tyranno de Portugal, e restabelecer o throno de sua majestade à senhora D. Maria II e a Carta de 1826, Paris, 1831; Segundo memorial sobre o estado presente de Portugal, e como não ha razão, nem direito, nem força para tirar à senhora D. Maria II a sua coroa, e a nós a nossa liberdade, Paris, 1831; Breve razoamento a favor da liberdade lusitana, e da senhora D. Maria II, duqueza do Porto, e rainha constitucional dos portuguezes, Paris, 1842; Exame de algumas aptidões e doutrinas, que os senhores Filippe Ferreira de Araujo e Castro, e Silvestre Pinheiro Ferreira expendem em seu «Parecer, Notas e Analyse das observações do sr. José Ferreira Borges», Paris, 1832; Parecer de dois advogados da Casa do Porto: 1.º sobre a carta particular que o sr. Candido José Xavier dirigiu ao sr. Rodrigo Pinto Pizarro; 2.º sobre a communicação que S. M. E o sr. D. Pedro de Bragança fez ao general Conde de Saldanha, etc., Paris, 1832; Resposta aos artigos publicados no “Times” contra o ex.mo sr. general Conde de Saldanha, e que suppomos serem obra d’um olheiro cha­morro bem conhecido, 1832; este mesmo opúsculo saiu mais extensamente desenvolvido em francês, com o título: Réponse aux accusations publiées derníérement dans le “Times” contre le général Comte de Saldanha; dediée á ses amis personnels et politiques par les citoyens portugais Joseph et Manuel da Silva Passos, Paris, 1832; Relatorio apresentado ás Cortes extraordinarias e constituintes, pelo ministro secretario de Estado dos Negocios do Reino, etc., Lisboa, 1837; Discurso do sr. Passos (Manuel) pronunciado na sessão de 16 de julho de 1841, na Camara dos Senadores, Porto, 1841; versa sobre o requerimento dum estrangeiro, que pedia uma pensão ao parlamento em remuneração de serviços feitos a causa constitucional; Discurso do sr. Passos (Manuel) sobre as contribuições municipaes, Porto, 1841; Discurso do sr. Passos (Manuel) pronunciado na sessão de 13 de fevereiro de 1840, Porto, 1840; teve por assunto a questão do tráfico da escravatura, na discussão da resposta ao discurso da Coroa; Discurso do sr. deputado Passos (Manuel) na sessão de 18 de outubro de 1844, Lisboa, 1845; sobre o uso e abuso dos poderes ditatoriais de que o governo se revestira, por ocasião da sublevação de Torres Novas em Fevereiro do mesmo ano.

22
Jun
08

“NOVAS FORMAS DE COMÉRCIO EM FINAIS DOS FINAIS DO SÉCULO XIX À DÉCADA DE 50 DO SÉCULO XX – OS ARMAZÉNS DO CHIADO E GRANDELA”

INTRODUÇÃO

Este trabalho trata de dois casos de sucesso comercial em finais do século XIX e princípios do século XX: Armazéns do Chiado e Armazéns Grandela.

É sabido que numa época de crise interna, como foi o fim do século para Portugal e a entrada no século XX, pouco se pensaria que dois Grandes Armazéns, com uma rivalidade entre sí, pudessem se desenvolver. Mas a verdade é que os seus Fundadores, conseguiram criar casas comerciais de grande nível para a sua época e tiveram capacidade mais do que suficiente para investir nos seus empreendimentos.

Seja os irmãos Nunes dos Santos, fundadores dos Grandes Armazéns do Chiado, seja Francisco Grandela, como se verá a seguir, tiveram o mérito de deixar para a memória da Cidade de Lisboa, duas grandes obras que o tempo não esquecerá, apesar da do desaparecimento dos Armazéns Grandela e apesar de se ter perdido património com o grande incêndio dos Armazéns do Chiado em 1988.

Armazéns do Chiado

Os Armazéns do Chiado antes de serem aquele grande centro comercial bem conhecido por todos nós portugueses, foi também um Convento e um Palácio para além de casa militar onde se instalou a 1.ª Companhia da Guarda Municipal antecessora da GNR, e a Repartição de Saúde que em 1836 transitam para o Convento do Carmo. É então vendido ao desbarato, no dizer de Pinheiro Chagas. O novo comprador é Manuel José de Oliveira (1774-1847) rico negociante da Madeira conhecido por Manuel dos Contos. Fosse pelo seu peso económico, pelo seu peso político ou por qualquer outro, o certo é que é nobilitado pela Rainha Dona Maria II, recebendo o título de Barão de Barcelinhos, nome que transita para o Convento, agora transformado em Palácio. Barão tem direito a brasão e o novo barão manda colocar o seu na fachada principal onde permanece mesmo quando o edifício foi usado como Hotel Universal ou esteve na posse dos Grandes Armazéns do Chiado.

Após a morte do Barão, o edifício alberga hotéis e várias lojas. Os hotéis que por lá passaram foram o Hotel Embaixador, o Hotel Europa, também conhecido por Hotel de l´Europe onde Sarah Bernhardt se instala na sua segunda vinda a Lisboa, a 10 de Abril de 1888, o Hotel Gibraltar em cujas janelas na noite de 31 de Outubro de 1878 se fez a primeira experiência de iluminação eléctrica do Chiado. O mais famoso, porém, foi o Hotel Universal, onde se representou ópera e onde se hospedaram Camilo e Elisa Hensler, futura Condessa de Edla segunda esposa do Rei D. Fernando II e onde Eça situou algumas cenas de A Capital.

Das diversas lojas, que foram muitas em numero e especialidade comercial, as mais famosas foram a do alfaiate João Keil, pai do autor do Hino Nacional e o atelier do fotógrafo da Casa Real, J. Camacho. Também por aqui estiveram instaladas academias diversas, entre elas a Assembleia Filarmónica Manuel dos Contos. O edifício até chegou a acolher em 1863 o Banco de Portugal, cujas instalações haviam sido vítimas de incêndio.

Falando de incêndios, o Palácio não escapa a um ocorrido a 29 de Setembro de 1880 que destrói grande parte do interior, nomeadamente as instalações dos Hotéis Europa e Gibraltar, perdendo-se a capela para sempre. A reconstrução faz-se por conta dos proprietários, apesar dos planos camarários que incluíam a abertura de uma escadaria publica ligando o Chiado directamente à Baixa.

A reconstrução termina em 1894, ano em que aqui se instala a Companhia dos Grandes Armazéns do Chiado, de uma sociedade de dois franceses, Luís Bonneville e Émile Phillipot que trocaram a sua primeira divisa «Bien faire et laisser dire» pela de «vender sempre mais barato que todos» numa tentativa gorada de enfrentar a concorrência, nomeadamente a dos vizinhos Armazéns Grandella. Na luta desigual, os franceses tiveram de fechar três anos depois do seu grande armazém em que predominavam as confecções de origem francesa, as ourivesarias e perfumarias.

Antes do século terminar, em 1899, o Palácio passa a conhecer novo inquilino que irá marcar indelével e duradouramente durante mais de um século não só o edifício, como o Chiado e a própria cidade, com projecção em todo o País, pela extensão e importância que assume – os Grandes Armazéns do Chiado. Pode dizer-se que durante mais de meio século a nova firma serve de matriz e de barómetro da actividade comercial nacional, ombreando, à nossa escala, com os grandes armazéns da estranja.

Nunes dos Santos e Companhia

É em Abril de 1888 que os irmãos Joaquim Nunes dos Santos (1860-1912) e Abílio Nunes dos Santos (1867-1946), naturais de Barril de Alva, concelho de Arganil, fundam a firma Nunes dos Santos e Companhia, com o capital insignificante para a época de 600 mil Réis, com sede a Travessa de São Nicolau nº12, a explorar negócio de importação de rendas e bordados. Desde cedo revelam-se espírito empreendedor e dinâmico, sempre ligados à actividade comercial, onde se iniciaram cada um com 15 anos, o primeiro no Porto e o segundo em Lisboa. Mostram-se também possuidores de um espírito rigoroso de gestão, procurando avançar com passos firmes, evitando passos aventurosos.

Nos primeiros tempos, a contenção orçamental era de rigor e necessária, e disso obtiveram dividendos porque dois anos depois, aumentam o capital social para 3 contos de Réis (o equivalente a 5 vezes o capital original) e procuram novas instalações no 1.º andar do n.º 113 da Rua dos Correeiros. O movimento justifica agora que Abílio se dedique a tempo inteiro à nova firma. O rigor e a contenção não abrandam apesar de tudo, pois durante 2 anos, para além dos dois sócios só contavam com um moço de fretes e um marçano. Por testemunho dos próprios, depreende-se que durante todos esses anos iniciais de expansão terão criado algumas dores de cabeça à concorrência que, segundo as suas palavras se revelam «despeitados e invejosos, servindo-se das armas mais Traiçoeiras, espalhando as mais infames calúnias, tentando abalar-se o crédito quer no País, quer no estrangeiro». Por aqui se percebe que a expansão era imensa e ultrapassava já as fronteiras.

Depois de terem ocupado também o 2.º andar da Rua dos Correeiros, em 1899 vemos-los instalados numa parte do andar nobre do Palácio de Barcelinhos, correspondente a um vigésimo do mesmo, a pagar uma renda avultada para a época de «um conto e quatrocentos mil réis anuais». No acto da inauguração contaram com a presença da Rainha Dona Amélia, cuja assinatura ficou registada no livro de ouro, infelizmente desaparecido com incêndio de 1988. Para dar apoio ao negócio que não parava de crescer, criaram a Sociedade de Tecelagem de Sedas, Lda, na Rua da Bombarda, para fabrico de tecidos de seda. Em 1904, nova alteração da sociedade que passa a designar-se Santos, Cruz & Oliveira, Lda, pela entrada de dois outros sócios, José Nunes de Oliveira Santos (sobrinho e futuro genro do sócio Abílio) e A. J. Cotrim da Cruz e deixa de ser grossista e passa a vender a retalho. Tinham começando verdadeiramente os Grandes Armazéns do Chiado. A divisa adoptada, «Ganhar pouco, servindo bem o público», era bem reveladora das suas intenções e agressividade comercial. Disso são também prova as filiais criadas dois anos depois no Porto e em Coimbra onde ainda hoje, apesar de já estar desactivado, o edifício continua a ser conhecido como o Chiadinho.

O ano de 1912 é marcante para a Sociedade. Morre um dos fundadores, Joaquim Nunes dos Santos, o que provoca forte abalo emocional ao irmão. É também admitido novo sócio, Abílio dos Santos Júnior, filho do sócio fundador. As instalações alargam-se ao Hotel Europa e a pouco e pouco tornam-se os únicos inquilinos, por absorção das diversas lojas independentes existentes no resto do Palácio. Por esta altura, tinham já produções exclusivas: cavalinhos de pasta de papel, chapéus de palha, tapetes e todo o tipo de rendas. Neste crescendo de desenvolvimento, não espanta que em 1927 tenham adquirido a totalidade do Palácio Barcelinhos.

Após a aquisição de todo o imóvel, os novos donos procedem a grandes modificações. Deitam-se paredes abaixo, abram-se novas salas, rasgam-se escadas. E como está na moda a arquitectura do ferro são utilizados vários elementos nesse material. Do antigo Convento ficam apenas as fachadas e as paredes-mestras. Não se mexe na estacaria de pinho em que o edifício estava assente, típico da Baixa pombalina, e que e podia observar numas das zonas das garagens. Em obras realizadas já nos anos 40 descobriram-se túneis extensos com ramificações, existência confirmada aquando da reconstrução após o incêndio de 1988. Do Palácio permanece principalmente vária decoração de interiores de salas e o corpo central, onde é respeitada a soberba escadaria principal nobre. Os antigos frequentadores ainda se recordam de duas figuras de bronze no patamar dessa escadaria, empunhando alabardas adaptadas para receberem luz eléctrica. Na Galeria do andar nobre são colocados dois bustos dos sócios fundadores e a respectiva placa comemorativa: o primeiro por iniciativa dos empregados em honra de Joaquim Nunes dos Santos e o outro em 1947 por decisão da firma, em memória de Abílio Nunes dos Santos e descerrado pela neta, Helena Nunes dos Santos.

Em 1935, a gerência manda construir a toda a extensão do telhado do edifício um vasto terraço envidraçado usado para restaurante. O interior é remodelado com novas galerias e a instalação de escadas rolantes.

Um dos sobreviventes da família e antigo sócio, Engenheiro Rui Santos conta uma história interessante e uma autêntica aventura passada com três dos seus familiares nos idos da guerra civil espanhola: “Tudo ocorreu nas vizinhanças de Vitória em Espanha. José Nunes de Oliveira Santos, o filho, Manuel Nunes dos Santos, o sobrinho, Manuel Duarte, e um Abílio Augusto, responsável pelas compras e pagamentos dirigiram-se a Paris para escolher as colecções e estabelecer contactos para futuras encomendas, como era habitual. Em 1938, todo o norte de Espanha encontrava-se nas mãos de Franco, à excepção de Santander, o país estava em guerra e de vez em quando havia controlos nas estradas. Foi o que aconteceu à entrada em Vitória, onde se mandaram parar. Ao revistar o carro, detectaram uma pistola que o José Nunes levava. Desconfiados, os espanhóis detêm-nos e levam-nos para o quartel de Cavalaria para serem interrogados. Já todos receavam pela vida, pensando que seriam fuzilados quando surge um capitão espanhol conhecido que sossega as autoridades militares e consegue a sua libertação, permitindo-lhes seguir viagem”.

Eram, pois, habituais as deslocações ao estrangeiro para compras, nomeadamente França, aonde se dirigiam com regularidade antes e nos primeiros tempos da guerra civil espanhola. Com a 2.ª Guerra Mundial, essas deslocações terminaram. De resto, os Grandes Armazéns mantinham fortes ligações com as galerias Printemps, havendo sido estudada a hipótese de associação que não chegou a concretizar-se. Na diversificação da proveniência dos artigos, ainda segundo testemunho de Rui Santos, de Inglaterra provinham gabardinas e de Itália chegou a ser importada lingerie e outras confecções. Contudo, houve sempre preocupação por parte da gerência dos Grandes Armazéns em estimular a produção nacional. Era o caso dos tecidos, «quase todo nacional e dos sapatos, todo fabricado no país». Ainda no tocante a confecções, os Armazéns dispunham de alfaiate próprio para fatos por medida, tanto de homem como de senhora.

A história e a vivência dos Grandes Armazéns do Chiado não se esgotam com meia dúzia de linhas. Mereceriam um estudo mais exaustivo e pormenorizado que não está no âmbito deste rememorar, cuja intenção se centra mais em indicar o que de essencial se passou e um ou outro aspecto mais relevante.

Armazéns Grandela

No que toca a estes Armazéns focarei exclusivamente a parte que me parece mais relevante e que tem a ver com o Comércio de Lisboa e o papel desses mesmos Armazéns.

A divisa dos Armazéns Grandella era “ (…) Sempre por bom caminho e segue! É a nossa divisa; com ela pensamos morrer, e oxalá os nossos sucessores nunca a alterem”.

Em 1879, o primeiro caixeiro Francisco Grandela, então com 26 anos de idade, estabeleceu-se por conta própria num pequeno estabelecimento de duas portas na Rua da Prata. Contou com a ajuda de um amigo que lhe emprestou os 250 mil réis necessários para pagar os 100 mil réis do trespasse e os seis primeiros meses de renda. Enquanto um outro amigo, carpinteiro, lhe fazia a armação da loja, percorria armazéns, escolhia e pedia amostras de fazendas, punha-lhes etiquetas e juntava-as às cartas que escrevia a pessoas conhecidas e outras de quem obtivera o endereço, convidando-as a encomendar um corte de fato ou um corte de vestido.

Chegou o dia da inauguração do estabelecimento, baptizado de Fazendas Baratas e Grandela tinha já realizado 400 mil réis de vendas por encomenda.

Negociando ao balcão, expedindo encomendas, Grandela chegou a 1881 com o capital necessário para saldar a dívida dos 250 mil réis e para tomar de trespasse uma casa mais ampla, no Rossio, a que chamou Loja do Povo.

Pintou a fachada e a armação da loja de vermelho. Introduziu novas técnicas de venda, como o anúncio comercial, a garantia do produto, com possibilidade de troca ou reembolso do dinheiro, a entrega ao domicílio e o sistema de venda a preço fixo. Os jornais da época publicavam grandes anúncios da loja, escritos com humor pelo próprio Grandela, os quais ocupavam por vezes uma página inteira. Cinco anos mais tarde, em 1886, a Loja do Povo não chegava para tanta clientela e encomendas o que obrigou à aquisição de outro estabelecimento, na Rua do Ouro. O Novo Mundo, o maior então na capital. O serviço da entrega de encomendas em Lisboa, na década de 90, era feito por oito carroças e um grande automóvel.

Ás críticas, Grandela respondia à letra, com anúncios colocados à porta da sua loja.

O sonho de Francisco Grandela era reunir as lojas de venda, os escritórios e os armazéns, espalhados por vários pontos da cidade, num só edifício, como os grandes armazéns de Paris. Em 1890, só com o seu capital, adquiriu por 70 contos o prédio inteiro ao lado da sua loja, na Rua do Ouro, hipotecando o local e as benfeitorias para construir de raiz o novo estabelecimento. Entretanto, desalojado da loja do Rossio pelo seu primeiro caixeiro, que de conluio com o senhorio, o visconde da Graça, registou o nome da Loja do Povo e tomou esta de arrendamento, Grandela, utilizando unicamente o seu nome, viu-se obrigado a abrir a nova casa, os Armazéns Grandela, em 1891.

Na viragem do século, os Armazéns Grandela, com as suas 40 secções, ofereciam ao consumidor uma larga variedade de artigos acessíveis a todas as bolsas. No dia 15 de Abril de 1901, a inauguração da estação de Verão “foi uma festa da moda, e a ela concorreu tudo o que Lisboa tem de mais elegante”.

Grandela decidiu ele próprio fabricar e até, como escreveu, “(…) para justificar o milagre porque vendemos barato”. Instalou as primeiras fábricas em S. Domingos de Benfica para a produção de malhas, lanifícios, fiação de lã e algodão, luvas, perfumaria, móveis de ferro, etc. Equipou-as com a maquinaria mais moderna, contratou técnicos no estrangeiros, e em pouco tempo os cerca de 200 operários produziam a preços mais baratos, segundo os preceitos mais modernos, todos os artigos de malha que em elegância, gosto e acabamento igualavam os produtos importados.

Os grandes armazéns democratizaram o comércio da moda, pouco a pouco impuseram ao conjunto da população os seus modelos de vestuários, os seus gostos através de campanhas de publicidade, nomeadamente dos catálogos.

No Bairro Grandela também muitas famílias, especialmente as mulheres que durante o dia trabalhavam na fábrica, faziam serão nas suas casas, à luz do candeeiro de petróleo, costurando as peças que já traziam talhadas das oficinas.

Francisco Grandela procurou, desde o início, desenvolver o negócio para as províncias, pois tinha a certeza ser este “um dos melhores meios de propaganda para o desenvolvimento geral da casa”. Contratou em Paris uma pessoa habilitada – Joaquim da Cruz Leiria, que trabalhava na secção de expedições dos grandes armazéns Printemps – para vir organizar o serviço de vendas por correspondência e a sua última inovação: a publicação de catálogos. Com tenacidade, o novo chefe da secção de Província conseguiu negociar nas repartições dos correios e nas dos caminhos-de-ferro o estabelecimento do serviço de reembolso, não só para o comércio em geral, como para o próprio Estado. Organizou a secção que empregava cerca de 50 pessoas, na maioria mulheres, por concelhos, aldeias e freguesias e dentro de pouco tempo, ele “estava senhor da população do continente, ilhas e colónias, para as suas expedições regulares e constantes”.

Os catálogos que se distribuíam gratuitamente pelo Continente, Açores, Madeira, África Ocidental e Oriental, Índia e Brasil excediam os 2 milhões de exemplares por ano.

Em 1903, adquiriu um prédio na Rua do Carmo, que pelas traseiras ligava com o edifício da Rua do Ouro, deitou-o abaixo até aos alicerces. O novo edifício de dupla fachada quer no conjunto formava 11 andares – 6 pisos a contar da entrada da Rua do Carmo – com uma estrutura de ferro, foi construído pelo empreiteiro João Pedro dos Santos, segundo projecto do arquitecto francês Demay, o mesmo que tinha projectado os armazéns Printemps, e que o engenheiro Ângelo de Sarrea Prado soube interpretar no acompanhamento da obra. Em Abril de 1907, o majestoso edifício – uma audácia arquitectónica para a época – era finalmente inaugurado e como o próprio diz: “(…) obra gigantesca, atrevida, pouco vulgar e cuja riqueza, elegância, gosto, reverbero de luzes, de cristais, dourados de capitéis, colunas de mármore, faz lembrar um conto de fadas, uma lenda das Mil e Uma Noites!”. Lisboa dispunha dos “mais lindos armazéns de toda a Península e também os maiores”.

A fachada da Rua do Carmo era encimada por um magnífico relógio, onde duas figuras de ferreiros batiam as horas, guarnecido pelas figuras míticas da Verdade e do Comércio. Nas colunas entre as portas, foram esculpidos na cantaria medalhões com a divisa da casa: “Sempre por bom caminho e segue”.

Uma escadaria nobre prolongava-se em galeria, da loja da Rua do Ouro até ao 3.º andar da Rua do Carmo, ao longo dos seis andares destinados à secções de venda e confecção. Três conjuntos de escadas amplas davam vazão para a rua, além de outras que ligavam todos os pisos entre sí. Um elegantíssimo elevador eléctrico, destinado aos clientes, ligava todos os andares. O monta-cargas ligava todas as secções, transportando fazendas de umas para as outras. As secções de Província e de Expediente achavam-se em contacto com todos os andares do edifício por outro elevador. A comunicação entre as várias secções era ainda facilitada pela central telefónica instalada.

Os pavimentos do subsolo da Rua do Carmo foram destinados aos depósitos. Os últimos pisos, a partir do 7.º andar, ficaram reservados a escritórios, secções de Atendimento, Promoção, Distribuição e Encomendas, instalações dos empregados, sala de jantar, e residência do próprio comerciante e da sua família. No piso da entrada da Rua do Carmo, o “andar nobre da casa”, ficaram as sedas, as fitas e as rendas. Novidade era a secção dedicada à fotografia. Com venda de material e câmara escura para experiências gratuitas, o Grandela pôs a arte fotográfica ao alcance de todos. O 8.º andar foi quase todo consagrado à secção de Província e à de Publicidade.

A última ampliação dos armazéns data de 1913, comprara-se outro prédio na Rua do Carmo, onde se instalavam os Armazéns Alcobia e outro na Rua do Crucifixo, para onde se transferiram os escritórios e as secções de expediente.

Em 1907, os empregados dos Armazéns Grandela seriam dos poucos, em Portugal, a beneficiar do descanso dominical e de assistência médica gratuita no local de trabalho. Descontavam uma quota mensal, proporcional ao ordenado, para a Caixa dos Socorros. As multas revertiam para o fundo e Grandela concorria também com uma parte. Os empregados de escritório beneficiavam ainda de uma semana de férias pagas. Os operários da fábrica tinham uma caixa de socorros nos mesmos moldes.

Chegou a Primeira Guerra Mundial e com ela a crise económica. O conflito que julgou durasse meses, prolongava-se. Ao contrário de muitos comerciantes que enriqueceram à custa da guerra, Grandela perdeu dinheiro. Proibiu “expressa e até violentamente que em sua casa os preços fossem alterados” combater o açambarcamento e a especulação dos preços, pôs a sua casa ao dispor do Governo para o racionamento na venda de géneros de primeira necessidade pelos preços de custo.

Os stocks iam desaparecendo e aquando da sua substituição, eram adquiridos 15 e 20 vezes mais caros. Na esperança que a situação cambial normalizasse, foi adiando os pagamentos até à altura em que os credores o exigiram, acrescidos de juros. A crise instalava-se. A exploração das fábricas foi interrompida. Para sortir convenientemente as secções de mercadorias, teve de recorrer pela segunda vez, à banca. Hipotecou os imóveis, levantando 5 mil contos.

Em 1916, Grandela transformou os armazéns em sociedade por quotas, a firma Grandela & Cª, associando-lhe os empregados que o acompanhavam havia mais de 20 anos. Com esta medida, procurava dar continuidade à sua obra e assegurar que o filho Luís Grandela fosse o seu único sucessor.

Em 1932, a administração de Grandela & Cª passou a ser exercida por um delegado do Banco Porto Covo & Cª que adquiriu posição privilegiada entre os accionistas. Três anos depois, em 1935, a Condessa de Porto Covo era a única proprietária da firma. Francisco Grandela já não assistira ao fim do projecto que levara mais de 50 anos a construir, pois morrera um ano antes, em 1934.

Numa altura em que a esmagadora maioria das casas comerciais do País não passava de pequenas organizações de tipo pouco mais que artesanal, Francisco Grandela, foi nas palavras de Carlos Fernandes, ele próprio comerciante também, “o herói máximo do arrojo e da iniciativa comercial em Lisboa”.

CONCLUSÃO

Em jeito de conclusão podemos dizer que a memória Histórica perdurará no que toca a estas mentes empreendedoras que foram os Fundadores tanto dos Armazéns do Chiado como Grandela.

Estes Fundadores tiveram suficiente visão de futuro, sabiam que era desta foram que Portugal recuperaria e investiram forte para conseguir servir a sociedade do seu tempo.

Não importa as cores políticas de cada um. O que importa aqui realçar é que tanto Grandela como os Irmãos Nunes dos Santos conseguiram criar dos maiores Centros Comerciais da época e certamente no que toca aos dois Armazéns, os maiores da Península Ibérica.

É motivo, sem dúvida, de orgulho para a História de Portugal, e mais especificamente no que toca à História Urbana, neste caso da nossa Capital, que possamos manter viva a memória desses senhores e dos seus empreendimentos.

Oxalá nos tempos que hoje correm, existirem outros Grandelas e Nunes Santos que investissem na nossa economia. Creio que Portugal poderia ganhar muito seguindo o exemplo dos Fundadores dos Grandes Armazéns do Chiado e Grandes Armazéns Grandela.

I

Bibliografia

A.A.V.V. – Grandela e o Comércio de Lisboa: As inovações numa sociedade tradicional, in Grandella, Maria Goretti Matias, CML, 1994

ARAUJO, Norberto – De S. Domingos ao Chiado. In: Peregrinações em Lisboa; Lisboa: Parceria António Moniz Pereira (1938), p. 87-90

FERREIRA, Hélder Godinho Silva – Armazéns do Chiado: 100 anos. Mafra: ELO, 2001

21
Jun
08

Dom Manuel II – O Rei Traído

21
Jun
08

Dom Carlos I – O Martirizado




RSS PDR – O JORNAL

  • Ocorreu um erro. é provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.

 

Junho 2008
S T Q Q S S D
    Jul »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  

Arquivos

Watch videos at Vodpod and other videos from this collection.

RSS PDR- Projecto Democracia Real