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“NOVAS FORMAS DE COMÉRCIO EM FINAIS DOS FINAIS DO SÉCULO XIX À DÉCADA DE 50 DO SÉCULO XX – OS ARMAZÉNS DO CHIADO E GRANDELA”

INTRODUÇÃO

Este trabalho trata de dois casos de sucesso comercial em finais do século XIX e princípios do século XX: Armazéns do Chiado e Armazéns Grandela.

É sabido que numa época de crise interna, como foi o fim do século para Portugal e a entrada no século XX, pouco se pensaria que dois Grandes Armazéns, com uma rivalidade entre sí, pudessem se desenvolver. Mas a verdade é que os seus Fundadores, conseguiram criar casas comerciais de grande nível para a sua época e tiveram capacidade mais do que suficiente para investir nos seus empreendimentos.

Seja os irmãos Nunes dos Santos, fundadores dos Grandes Armazéns do Chiado, seja Francisco Grandela, como se verá a seguir, tiveram o mérito de deixar para a memória da Cidade de Lisboa, duas grandes obras que o tempo não esquecerá, apesar da do desaparecimento dos Armazéns Grandela e apesar de se ter perdido património com o grande incêndio dos Armazéns do Chiado em 1988.

Armazéns do Chiado

Os Armazéns do Chiado antes de serem aquele grande centro comercial bem conhecido por todos nós portugueses, foi também um Convento e um Palácio para além de casa militar onde se instalou a 1.ª Companhia da Guarda Municipal antecessora da GNR, e a Repartição de Saúde que em 1836 transitam para o Convento do Carmo. É então vendido ao desbarato, no dizer de Pinheiro Chagas. O novo comprador é Manuel José de Oliveira (1774-1847) rico negociante da Madeira conhecido por Manuel dos Contos. Fosse pelo seu peso económico, pelo seu peso político ou por qualquer outro, o certo é que é nobilitado pela Rainha Dona Maria II, recebendo o título de Barão de Barcelinhos, nome que transita para o Convento, agora transformado em Palácio. Barão tem direito a brasão e o novo barão manda colocar o seu na fachada principal onde permanece mesmo quando o edifício foi usado como Hotel Universal ou esteve na posse dos Grandes Armazéns do Chiado.

Após a morte do Barão, o edifício alberga hotéis e várias lojas. Os hotéis que por lá passaram foram o Hotel Embaixador, o Hotel Europa, também conhecido por Hotel de l´Europe onde Sarah Bernhardt se instala na sua segunda vinda a Lisboa, a 10 de Abril de 1888, o Hotel Gibraltar em cujas janelas na noite de 31 de Outubro de 1878 se fez a primeira experiência de iluminação eléctrica do Chiado. O mais famoso, porém, foi o Hotel Universal, onde se representou ópera e onde se hospedaram Camilo e Elisa Hensler, futura Condessa de Edla segunda esposa do Rei D. Fernando II e onde Eça situou algumas cenas de A Capital.

Das diversas lojas, que foram muitas em numero e especialidade comercial, as mais famosas foram a do alfaiate João Keil, pai do autor do Hino Nacional e o atelier do fotógrafo da Casa Real, J. Camacho. Também por aqui estiveram instaladas academias diversas, entre elas a Assembleia Filarmónica Manuel dos Contos. O edifício até chegou a acolher em 1863 o Banco de Portugal, cujas instalações haviam sido vítimas de incêndio.

Falando de incêndios, o Palácio não escapa a um ocorrido a 29 de Setembro de 1880 que destrói grande parte do interior, nomeadamente as instalações dos Hotéis Europa e Gibraltar, perdendo-se a capela para sempre. A reconstrução faz-se por conta dos proprietários, apesar dos planos camarários que incluíam a abertura de uma escadaria publica ligando o Chiado directamente à Baixa.

A reconstrução termina em 1894, ano em que aqui se instala a Companhia dos Grandes Armazéns do Chiado, de uma sociedade de dois franceses, Luís Bonneville e Émile Phillipot que trocaram a sua primeira divisa «Bien faire et laisser dire» pela de «vender sempre mais barato que todos» numa tentativa gorada de enfrentar a concorrência, nomeadamente a dos vizinhos Armazéns Grandella. Na luta desigual, os franceses tiveram de fechar três anos depois do seu grande armazém em que predominavam as confecções de origem francesa, as ourivesarias e perfumarias.

Antes do século terminar, em 1899, o Palácio passa a conhecer novo inquilino que irá marcar indelével e duradouramente durante mais de um século não só o edifício, como o Chiado e a própria cidade, com projecção em todo o País, pela extensão e importância que assume – os Grandes Armazéns do Chiado. Pode dizer-se que durante mais de meio século a nova firma serve de matriz e de barómetro da actividade comercial nacional, ombreando, à nossa escala, com os grandes armazéns da estranja.

Nunes dos Santos e Companhia

É em Abril de 1888 que os irmãos Joaquim Nunes dos Santos (1860-1912) e Abílio Nunes dos Santos (1867-1946), naturais de Barril de Alva, concelho de Arganil, fundam a firma Nunes dos Santos e Companhia, com o capital insignificante para a época de 600 mil Réis, com sede a Travessa de São Nicolau nº12, a explorar negócio de importação de rendas e bordados. Desde cedo revelam-se espírito empreendedor e dinâmico, sempre ligados à actividade comercial, onde se iniciaram cada um com 15 anos, o primeiro no Porto e o segundo em Lisboa. Mostram-se também possuidores de um espírito rigoroso de gestão, procurando avançar com passos firmes, evitando passos aventurosos.

Nos primeiros tempos, a contenção orçamental era de rigor e necessária, e disso obtiveram dividendos porque dois anos depois, aumentam o capital social para 3 contos de Réis (o equivalente a 5 vezes o capital original) e procuram novas instalações no 1.º andar do n.º 113 da Rua dos Correeiros. O movimento justifica agora que Abílio se dedique a tempo inteiro à nova firma. O rigor e a contenção não abrandam apesar de tudo, pois durante 2 anos, para além dos dois sócios só contavam com um moço de fretes e um marçano. Por testemunho dos próprios, depreende-se que durante todos esses anos iniciais de expansão terão criado algumas dores de cabeça à concorrência que, segundo as suas palavras se revelam «despeitados e invejosos, servindo-se das armas mais Traiçoeiras, espalhando as mais infames calúnias, tentando abalar-se o crédito quer no País, quer no estrangeiro». Por aqui se percebe que a expansão era imensa e ultrapassava já as fronteiras.

Depois de terem ocupado também o 2.º andar da Rua dos Correeiros, em 1899 vemos-los instalados numa parte do andar nobre do Palácio de Barcelinhos, correspondente a um vigésimo do mesmo, a pagar uma renda avultada para a época de «um conto e quatrocentos mil réis anuais». No acto da inauguração contaram com a presença da Rainha Dona Amélia, cuja assinatura ficou registada no livro de ouro, infelizmente desaparecido com incêndio de 1988. Para dar apoio ao negócio que não parava de crescer, criaram a Sociedade de Tecelagem de Sedas, Lda, na Rua da Bombarda, para fabrico de tecidos de seda. Em 1904, nova alteração da sociedade que passa a designar-se Santos, Cruz & Oliveira, Lda, pela entrada de dois outros sócios, José Nunes de Oliveira Santos (sobrinho e futuro genro do sócio Abílio) e A. J. Cotrim da Cruz e deixa de ser grossista e passa a vender a retalho. Tinham começando verdadeiramente os Grandes Armazéns do Chiado. A divisa adoptada, «Ganhar pouco, servindo bem o público», era bem reveladora das suas intenções e agressividade comercial. Disso são também prova as filiais criadas dois anos depois no Porto e em Coimbra onde ainda hoje, apesar de já estar desactivado, o edifício continua a ser conhecido como o Chiadinho.

O ano de 1912 é marcante para a Sociedade. Morre um dos fundadores, Joaquim Nunes dos Santos, o que provoca forte abalo emocional ao irmão. É também admitido novo sócio, Abílio dos Santos Júnior, filho do sócio fundador. As instalações alargam-se ao Hotel Europa e a pouco e pouco tornam-se os únicos inquilinos, por absorção das diversas lojas independentes existentes no resto do Palácio. Por esta altura, tinham já produções exclusivas: cavalinhos de pasta de papel, chapéus de palha, tapetes e todo o tipo de rendas. Neste crescendo de desenvolvimento, não espanta que em 1927 tenham adquirido a totalidade do Palácio Barcelinhos.

Após a aquisição de todo o imóvel, os novos donos procedem a grandes modificações. Deitam-se paredes abaixo, abram-se novas salas, rasgam-se escadas. E como está na moda a arquitectura do ferro são utilizados vários elementos nesse material. Do antigo Convento ficam apenas as fachadas e as paredes-mestras. Não se mexe na estacaria de pinho em que o edifício estava assente, típico da Baixa pombalina, e que e podia observar numas das zonas das garagens. Em obras realizadas já nos anos 40 descobriram-se túneis extensos com ramificações, existência confirmada aquando da reconstrução após o incêndio de 1988. Do Palácio permanece principalmente vária decoração de interiores de salas e o corpo central, onde é respeitada a soberba escadaria principal nobre. Os antigos frequentadores ainda se recordam de duas figuras de bronze no patamar dessa escadaria, empunhando alabardas adaptadas para receberem luz eléctrica. Na Galeria do andar nobre são colocados dois bustos dos sócios fundadores e a respectiva placa comemorativa: o primeiro por iniciativa dos empregados em honra de Joaquim Nunes dos Santos e o outro em 1947 por decisão da firma, em memória de Abílio Nunes dos Santos e descerrado pela neta, Helena Nunes dos Santos.

Em 1935, a gerência manda construir a toda a extensão do telhado do edifício um vasto terraço envidraçado usado para restaurante. O interior é remodelado com novas galerias e a instalação de escadas rolantes.

Um dos sobreviventes da família e antigo sócio, Engenheiro Rui Santos conta uma história interessante e uma autêntica aventura passada com três dos seus familiares nos idos da guerra civil espanhola: “Tudo ocorreu nas vizinhanças de Vitória em Espanha. José Nunes de Oliveira Santos, o filho, Manuel Nunes dos Santos, o sobrinho, Manuel Duarte, e um Abílio Augusto, responsável pelas compras e pagamentos dirigiram-se a Paris para escolher as colecções e estabelecer contactos para futuras encomendas, como era habitual. Em 1938, todo o norte de Espanha encontrava-se nas mãos de Franco, à excepção de Santander, o país estava em guerra e de vez em quando havia controlos nas estradas. Foi o que aconteceu à entrada em Vitória, onde se mandaram parar. Ao revistar o carro, detectaram uma pistola que o José Nunes levava. Desconfiados, os espanhóis detêm-nos e levam-nos para o quartel de Cavalaria para serem interrogados. Já todos receavam pela vida, pensando que seriam fuzilados quando surge um capitão espanhol conhecido que sossega as autoridades militares e consegue a sua libertação, permitindo-lhes seguir viagem”.

Eram, pois, habituais as deslocações ao estrangeiro para compras, nomeadamente França, aonde se dirigiam com regularidade antes e nos primeiros tempos da guerra civil espanhola. Com a 2.ª Guerra Mundial, essas deslocações terminaram. De resto, os Grandes Armazéns mantinham fortes ligações com as galerias Printemps, havendo sido estudada a hipótese de associação que não chegou a concretizar-se. Na diversificação da proveniência dos artigos, ainda segundo testemunho de Rui Santos, de Inglaterra provinham gabardinas e de Itália chegou a ser importada lingerie e outras confecções. Contudo, houve sempre preocupação por parte da gerência dos Grandes Armazéns em estimular a produção nacional. Era o caso dos tecidos, «quase todo nacional e dos sapatos, todo fabricado no país». Ainda no tocante a confecções, os Armazéns dispunham de alfaiate próprio para fatos por medida, tanto de homem como de senhora.

A história e a vivência dos Grandes Armazéns do Chiado não se esgotam com meia dúzia de linhas. Mereceriam um estudo mais exaustivo e pormenorizado que não está no âmbito deste rememorar, cuja intenção se centra mais em indicar o que de essencial se passou e um ou outro aspecto mais relevante.

Armazéns Grandela

No que toca a estes Armazéns focarei exclusivamente a parte que me parece mais relevante e que tem a ver com o Comércio de Lisboa e o papel desses mesmos Armazéns.

A divisa dos Armazéns Grandella era “ (…) Sempre por bom caminho e segue! É a nossa divisa; com ela pensamos morrer, e oxalá os nossos sucessores nunca a alterem”.

Em 1879, o primeiro caixeiro Francisco Grandela, então com 26 anos de idade, estabeleceu-se por conta própria num pequeno estabelecimento de duas portas na Rua da Prata. Contou com a ajuda de um amigo que lhe emprestou os 250 mil réis necessários para pagar os 100 mil réis do trespasse e os seis primeiros meses de renda. Enquanto um outro amigo, carpinteiro, lhe fazia a armação da loja, percorria armazéns, escolhia e pedia amostras de fazendas, punha-lhes etiquetas e juntava-as às cartas que escrevia a pessoas conhecidas e outras de quem obtivera o endereço, convidando-as a encomendar um corte de fato ou um corte de vestido.

Chegou o dia da inauguração do estabelecimento, baptizado de Fazendas Baratas e Grandela tinha já realizado 400 mil réis de vendas por encomenda.

Negociando ao balcão, expedindo encomendas, Grandela chegou a 1881 com o capital necessário para saldar a dívida dos 250 mil réis e para tomar de trespasse uma casa mais ampla, no Rossio, a que chamou Loja do Povo.

Pintou a fachada e a armação da loja de vermelho. Introduziu novas técnicas de venda, como o anúncio comercial, a garantia do produto, com possibilidade de troca ou reembolso do dinheiro, a entrega ao domicílio e o sistema de venda a preço fixo. Os jornais da época publicavam grandes anúncios da loja, escritos com humor pelo próprio Grandela, os quais ocupavam por vezes uma página inteira. Cinco anos mais tarde, em 1886, a Loja do Povo não chegava para tanta clientela e encomendas o que obrigou à aquisição de outro estabelecimento, na Rua do Ouro. O Novo Mundo, o maior então na capital. O serviço da entrega de encomendas em Lisboa, na década de 90, era feito por oito carroças e um grande automóvel.

Ás críticas, Grandela respondia à letra, com anúncios colocados à porta da sua loja.

O sonho de Francisco Grandela era reunir as lojas de venda, os escritórios e os armazéns, espalhados por vários pontos da cidade, num só edifício, como os grandes armazéns de Paris. Em 1890, só com o seu capital, adquiriu por 70 contos o prédio inteiro ao lado da sua loja, na Rua do Ouro, hipotecando o local e as benfeitorias para construir de raiz o novo estabelecimento. Entretanto, desalojado da loja do Rossio pelo seu primeiro caixeiro, que de conluio com o senhorio, o visconde da Graça, registou o nome da Loja do Povo e tomou esta de arrendamento, Grandela, utilizando unicamente o seu nome, viu-se obrigado a abrir a nova casa, os Armazéns Grandela, em 1891.

Na viragem do século, os Armazéns Grandela, com as suas 40 secções, ofereciam ao consumidor uma larga variedade de artigos acessíveis a todas as bolsas. No dia 15 de Abril de 1901, a inauguração da estação de Verão “foi uma festa da moda, e a ela concorreu tudo o que Lisboa tem de mais elegante”.

Grandela decidiu ele próprio fabricar e até, como escreveu, “(…) para justificar o milagre porque vendemos barato”. Instalou as primeiras fábricas em S. Domingos de Benfica para a produção de malhas, lanifícios, fiação de lã e algodão, luvas, perfumaria, móveis de ferro, etc. Equipou-as com a maquinaria mais moderna, contratou técnicos no estrangeiros, e em pouco tempo os cerca de 200 operários produziam a preços mais baratos, segundo os preceitos mais modernos, todos os artigos de malha que em elegância, gosto e acabamento igualavam os produtos importados.

Os grandes armazéns democratizaram o comércio da moda, pouco a pouco impuseram ao conjunto da população os seus modelos de vestuários, os seus gostos através de campanhas de publicidade, nomeadamente dos catálogos.

No Bairro Grandela também muitas famílias, especialmente as mulheres que durante o dia trabalhavam na fábrica, faziam serão nas suas casas, à luz do candeeiro de petróleo, costurando as peças que já traziam talhadas das oficinas.

Francisco Grandela procurou, desde o início, desenvolver o negócio para as províncias, pois tinha a certeza ser este “um dos melhores meios de propaganda para o desenvolvimento geral da casa”. Contratou em Paris uma pessoa habilitada – Joaquim da Cruz Leiria, que trabalhava na secção de expedições dos grandes armazéns Printemps – para vir organizar o serviço de vendas por correspondência e a sua última inovação: a publicação de catálogos. Com tenacidade, o novo chefe da secção de Província conseguiu negociar nas repartições dos correios e nas dos caminhos-de-ferro o estabelecimento do serviço de reembolso, não só para o comércio em geral, como para o próprio Estado. Organizou a secção que empregava cerca de 50 pessoas, na maioria mulheres, por concelhos, aldeias e freguesias e dentro de pouco tempo, ele “estava senhor da população do continente, ilhas e colónias, para as suas expedições regulares e constantes”.

Os catálogos que se distribuíam gratuitamente pelo Continente, Açores, Madeira, África Ocidental e Oriental, Índia e Brasil excediam os 2 milhões de exemplares por ano.

Em 1903, adquiriu um prédio na Rua do Carmo, que pelas traseiras ligava com o edifício da Rua do Ouro, deitou-o abaixo até aos alicerces. O novo edifício de dupla fachada quer no conjunto formava 11 andares – 6 pisos a contar da entrada da Rua do Carmo – com uma estrutura de ferro, foi construído pelo empreiteiro João Pedro dos Santos, segundo projecto do arquitecto francês Demay, o mesmo que tinha projectado os armazéns Printemps, e que o engenheiro Ângelo de Sarrea Prado soube interpretar no acompanhamento da obra. Em Abril de 1907, o majestoso edifício – uma audácia arquitectónica para a época – era finalmente inaugurado e como o próprio diz: “(…) obra gigantesca, atrevida, pouco vulgar e cuja riqueza, elegância, gosto, reverbero de luzes, de cristais, dourados de capitéis, colunas de mármore, faz lembrar um conto de fadas, uma lenda das Mil e Uma Noites!”. Lisboa dispunha dos “mais lindos armazéns de toda a Península e também os maiores”.

A fachada da Rua do Carmo era encimada por um magnífico relógio, onde duas figuras de ferreiros batiam as horas, guarnecido pelas figuras míticas da Verdade e do Comércio. Nas colunas entre as portas, foram esculpidos na cantaria medalhões com a divisa da casa: “Sempre por bom caminho e segue”.

Uma escadaria nobre prolongava-se em galeria, da loja da Rua do Ouro até ao 3.º andar da Rua do Carmo, ao longo dos seis andares destinados à secções de venda e confecção. Três conjuntos de escadas amplas davam vazão para a rua, além de outras que ligavam todos os pisos entre sí. Um elegantíssimo elevador eléctrico, destinado aos clientes, ligava todos os andares. O monta-cargas ligava todas as secções, transportando fazendas de umas para as outras. As secções de Província e de Expediente achavam-se em contacto com todos os andares do edifício por outro elevador. A comunicação entre as várias secções era ainda facilitada pela central telefónica instalada.

Os pavimentos do subsolo da Rua do Carmo foram destinados aos depósitos. Os últimos pisos, a partir do 7.º andar, ficaram reservados a escritórios, secções de Atendimento, Promoção, Distribuição e Encomendas, instalações dos empregados, sala de jantar, e residência do próprio comerciante e da sua família. No piso da entrada da Rua do Carmo, o “andar nobre da casa”, ficaram as sedas, as fitas e as rendas. Novidade era a secção dedicada à fotografia. Com venda de material e câmara escura para experiências gratuitas, o Grandela pôs a arte fotográfica ao alcance de todos. O 8.º andar foi quase todo consagrado à secção de Província e à de Publicidade.

A última ampliação dos armazéns data de 1913, comprara-se outro prédio na Rua do Carmo, onde se instalavam os Armazéns Alcobia e outro na Rua do Crucifixo, para onde se transferiram os escritórios e as secções de expediente.

Em 1907, os empregados dos Armazéns Grandela seriam dos poucos, em Portugal, a beneficiar do descanso dominical e de assistência médica gratuita no local de trabalho. Descontavam uma quota mensal, proporcional ao ordenado, para a Caixa dos Socorros. As multas revertiam para o fundo e Grandela concorria também com uma parte. Os empregados de escritório beneficiavam ainda de uma semana de férias pagas. Os operários da fábrica tinham uma caixa de socorros nos mesmos moldes.

Chegou a Primeira Guerra Mundial e com ela a crise económica. O conflito que julgou durasse meses, prolongava-se. Ao contrário de muitos comerciantes que enriqueceram à custa da guerra, Grandela perdeu dinheiro. Proibiu “expressa e até violentamente que em sua casa os preços fossem alterados” combater o açambarcamento e a especulação dos preços, pôs a sua casa ao dispor do Governo para o racionamento na venda de géneros de primeira necessidade pelos preços de custo.

Os stocks iam desaparecendo e aquando da sua substituição, eram adquiridos 15 e 20 vezes mais caros. Na esperança que a situação cambial normalizasse, foi adiando os pagamentos até à altura em que os credores o exigiram, acrescidos de juros. A crise instalava-se. A exploração das fábricas foi interrompida. Para sortir convenientemente as secções de mercadorias, teve de recorrer pela segunda vez, à banca. Hipotecou os imóveis, levantando 5 mil contos.

Em 1916, Grandela transformou os armazéns em sociedade por quotas, a firma Grandela & Cª, associando-lhe os empregados que o acompanhavam havia mais de 20 anos. Com esta medida, procurava dar continuidade à sua obra e assegurar que o filho Luís Grandela fosse o seu único sucessor.

Em 1932, a administração de Grandela & Cª passou a ser exercida por um delegado do Banco Porto Covo & Cª que adquiriu posição privilegiada entre os accionistas. Três anos depois, em 1935, a Condessa de Porto Covo era a única proprietária da firma. Francisco Grandela já não assistira ao fim do projecto que levara mais de 50 anos a construir, pois morrera um ano antes, em 1934.

Numa altura em que a esmagadora maioria das casas comerciais do País não passava de pequenas organizações de tipo pouco mais que artesanal, Francisco Grandela, foi nas palavras de Carlos Fernandes, ele próprio comerciante também, “o herói máximo do arrojo e da iniciativa comercial em Lisboa”.

CONCLUSÃO

Em jeito de conclusão podemos dizer que a memória Histórica perdurará no que toca a estas mentes empreendedoras que foram os Fundadores tanto dos Armazéns do Chiado como Grandela.

Estes Fundadores tiveram suficiente visão de futuro, sabiam que era desta foram que Portugal recuperaria e investiram forte para conseguir servir a sociedade do seu tempo.

Não importa as cores políticas de cada um. O que importa aqui realçar é que tanto Grandela como os Irmãos Nunes dos Santos conseguiram criar dos maiores Centros Comerciais da época e certamente no que toca aos dois Armazéns, os maiores da Península Ibérica.

É motivo, sem dúvida, de orgulho para a História de Portugal, e mais especificamente no que toca à História Urbana, neste caso da nossa Capital, que possamos manter viva a memória desses senhores e dos seus empreendimentos.

Oxalá nos tempos que hoje correm, existirem outros Grandelas e Nunes Santos que investissem na nossa economia. Creio que Portugal poderia ganhar muito seguindo o exemplo dos Fundadores dos Grandes Armazéns do Chiado e Grandes Armazéns Grandela.

I

Bibliografia

A.A.V.V. – Grandela e o Comércio de Lisboa: As inovações numa sociedade tradicional, in Grandella, Maria Goretti Matias, CML, 1994

ARAUJO, Norberto – De S. Domingos ao Chiado. In: Peregrinações em Lisboa; Lisboa: Parceria António Moniz Pereira (1938), p. 87-90

FERREIRA, Hélder Godinho Silva – Armazéns do Chiado: 100 anos. Mafra: ELO, 2001


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