Arquivo de Julho 6th, 2008

06
Jul
08

A Ordem de Cristo e Dom Dinis

1312 é o ano em que o papa extingue a Ordem do Templo. O imenso papel militar e económico que os Templários desempenhavam em grande parte da Europa, e especialmente em França e na Península, foi posto em causa, a bem dizer subitamente (1307), por Filipe, o Belo, rei de França. O neto de S. Luís seguia uma política inteiramente oposta à do avô. Nesta questão, é possível que tenha tido alguns pretextos; mas é praticamente seguro que não teve razão. A verdade é que conseguiu, vencendo a resistência do papa Clemente V, que a Ordem fosse extinta. O papa julgou mais razoável que os bens do Templo passassem para os Hospitalários. El-Rei D. Dinis, não vendo motivo para tais severidades, mas compreendendo ser impossível salvar os Templários como instituição, bateu-se por que eles não fossem perseguidos e por que os seus bens servissem para a fundação da nova Ordem, votada à defesa da cristandade contra os Infiéis. Começou por fazer um acordo com seu genro, Filipe de Castela; a breve trecho se lhes juntou o cunhado, de Aragão. E entre os três conseguiram do papa (já então João XXII) autorização para que o destino das riquezas templárias fosse regulado caso a caso. Em Portugal, com perfeito acordo pontifício, foi criada a de Cavalaria de Jesus Cristo, provisoriamente com sede em Castro Marim, enquanto não se estabeleceu (1356?) em Tomar no Castelo que fora dos Templários.

As negociações tinham sido demoradas e complexas. Mas D. Dinis triunfou. Em 1319, João XXII, pela bula Ad ea ex quibus, de 14 de Março, ratificada por D. Dinis em 5 de Maio, funda a Ordem de Cristo. A história do Mundo ia mudar: é sabido que foi esta Ordem o instrumento principal de que, no espiritual e no material, se iriam servir os nossos reis para a empresa dos Descobrimentos, da Colonização e da Evangelização.

A nova Ordem ficou a reger-se pela Regra de Calatrava, ou seja, de Cister. O espírito de S. Bernardo continuava a inspirar e disciplinar muito da acção dos Portugueses, como no tempo de D. Afonso Henriques.

Logo em 1320, a nova Ordem participava na guerra movida por D. Dinis contra os Mouros, guerra essencialmente marítima, necessária para a prosperidade das populações costeiras do Sul do País. O rei podia dispor da décima de todas as rendas eclesiásticas dos reinos, exceptuando as da Ordem do Hospital.

É do ano seguinte (1321) o primeiro Regimento (estatuto) da Ordem de Cristo. Nesse ano, os bens da Ordem estavam espalhados por todo o País, desde Rio Frio, no Alto Minho, a Castro Marim, no Algarve, desde Soure a Salvaterra do Extremo, desde Lisboa a Elvas.

Fonte: Livro “A Monarquia Portuguesa” da Reader´s Digest.

06
Jul
08

A Conferência de Zamora

Nenhum texto ficou (que se sabia) do encontro solene que tiveram em Zamora, a 4 e 5 de Outubro de 1143, os dois netos de Afonso VI, Afonso VII de Leão e Castela e Afonso I de Portugal. Ficou, porém, uma referência dupla, isto é, uma frase igual em dois documentos. E essa frase é um importante elemento tanto mais importante quanto revela a importância do acontecimento de modo ocasional. Eis as palavras extraídas por um conhecido historiador espanhol de dois diplomas do próprio Afonso VII: ” Zamorae (…) tempore quo Guido Romanae ecelesiae cardinalis concilium in Valle Oleti celebravit et ad colloquium regis Portugalliae cum imperatore venit” (em Português: “Em Zamora (…), no tempo em que Guido, Cardeal da Igreja de Roma, celebrou o concílio em Valhadolide e veio ao colóquio do rei de Portugal com o Imperador”).

Que se passou? Que colóquio (ou conferência) foi este? Quem o provocou?

Três anos antes, em 1140, depois do recontro ou torneio bélico de Valdevez (em que os cavaleiros de Afonso Henriques triunfaram sobre os de seu primo), os dois príncipes concluíram uma trégua por três anos. O cardeal veio à Hispânia  tratar de matéria eclesiástica. Deve ter aproveitado a ocasião para, como era habitual, procurar que a trégua se transformasse em paz. Em Zamora, portanto perto da fronteira de Portugal e onde Afonso Henriques se armara cavaleiro (como os reis) em 1125, encontraram-se os dois netos de Afonso (o de Toledo); conversaram e discutiram por dois dias. Ao fim, sabe-se por cronistas que estabeleceram a paz e que o imperador deixou de pôr em dúvida o título de Rei, já usado desde 1139 por Afonso de Portugal.

Afonso VII (que fora sagrado imperador em 1135, conseguindo assim um carácter canónico que seu avô não tivera) esperava que seu primo de Portugal o aceitasse como superior. Mas D. Afonso Henriques já fizera um acordo com o cardeal Guido segundo o qual o novo reino se tornaria vassalo da Santa Sé, não podendo, portanto, estar na dependência de mais ninguém.

Para não se eximir completamente a um vínculo jurídico que, em principio, se estendia a toda a Península, o rei de Portugal aceitou a tenência do território de Astorga. Em Astorga morrera seu pai, D. Henrique. Diz a tradição (escrita desde o século XV) que D. Henrique instara com o filho para que nunca abandonasse a velha cidade implantada entre a Galiza e Leão, a qual seria chave para “tudo o mais”. Com mais ou menos simbolismo (e a própria Zamora tinha também valor simbólico), Afonso Henriques jura fidelidade ao imperador, mas como governador daquele território. Era uma situação relativamente comum na Europa feudal: por exemplo, o rei de Inglaterra, como duque da Normandia, era vassalo do rei de França.

O futuro mostrará que Afonso Henriques não deu a conhecer em Zamora o acordo feito com o cardeal Guido e que a Sé de Roma não ratificará imediatamente esse acordo e procurará manter uma linha diplomática equidistante entre Portugal e Castela. Seja como for, nunca mais um soberano da Península se esquecerá de que Portugal é um reino e o seu soberano um verdadeiro rei.

4 e 5 de Outubro: datas memoráveis desde o século XII.

Fonte: Livro “A Monarquia Portuguesa” da Reader´s Digest.




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