14
Set
08

Os 100 anos do Império CUF

Ergueram-se chaminés e durante 100 anos o Barreiro respirou o fumo do progresso industrial que, ao mesmo tempo, pintou os prédios envolventes de um cinzento poluído. Nasceu a Companhia União Fabril (CUF), à beira do Tejo e com vista para Lisboa, com várias fábricas para produzir Ácidos, Adubo, Cobre, Química Orgânica, Metalomecânica e Têxtil.

Cresceu uma população de 7800 habitantes para 26 mil, nos anos 46, e 60 mil, nos anos 70 – mais de 30 anos de franca expansão da maior indústria do País.

Convivia o emprego com a pobreza de muitas famílias, a par de uma política social ímpar. Alfredo da Silva, cáustico para os inimigos mas capaz de se misturar com operários e dizer palavrões, foi o “patrão” deste império. O genro, Manuel de Mello, sucedeu-o e, depois, os netos Jorge e José Manuel. Tudo se deu entre convulsões de operários que lutavam pela liberdade; e guerras históricas.

Construção entre a queda do regime monárquico e o início do Estado Novo

A fundação da CUF, a 19 de Setembro de 1908, sucede ao regícidio do Rei D. Carlos e do Príncipe D. Luís Filipe. Alfredo da Silva, o patrão da indústria no Barreiro, era monárquico e apoiante de João Franco, tendo sido seu deputado. Em 1910 é instaurada a Primeira Republica. É entre este turbilhão político e social que a CUF se organiza. Em 1917 dá-se a Revolução Russa, marcando o início do marxismo e da consciencialização operária. “No Barreiro havia uma franja de operários, mais politizada e ao corrente do que internacionalmente ia acontecendo, ligada a algum radicalismo e a forças sindicais desse período. Os outros viviam na dependência da construção paternalista da CUF”, explica Miguel Figueira de Faria, autor da Biografia de Alfredo da Silva, editada pela Bertrand. Em 1918, o indústrial afasta-se da política após o assassinato de Sidónio Pais. Seguem-se greves na CUF e Alfredo da Silva exila-se em Espanha, dois anos, ao escapar a uma tentativa de assassinato. Em 1921, os liberais ganham as eleições e o indústrial volta a ser alvo de atentado. Parte novamente para Espanha, de onde regressa em 27. Com Salazar não terá tido intimidade, mas terá colhido os seus dividendos. Alfredo da Silva demonstra “apoio aos nacionalistas na Guerra Civil de Espanha”, recorda o historiador Miguel Figueira de Faria.

Livros, selos, colóquios e exposições marcam centenário no Barreiro

O Centenário da CUF, que se comemora sexta-feira, é evocado no livro “Alfredo da Silva, a CUF e o Barreiro”, assinado pelo jornalista do “Jornal de Negócios”, Fernando Sobral, e por Elisabete Sá e Agostinho Leite.

Trata-se de uma investigação ao grande império da CUF e ao seu fundador. Além de retratar também “a relação entre a CUF e o Barreiro”, segundo explica Fernando Sobral. Na sexta-feira será apresentado o álbum fotográfico “A Fábrica”, coordenado por Leal da Silva, Sardinha Pereira e António Camarão. E será lançado também o livro do jornalista Jorge Morais “Rua do Ácido Sulfúrico”. No mesmo dia, às 17h, no restaurante Palácio Alfredo da Silva, no bairro Operário da CUF, no Barreiro, realiza-se a cerimónia de colocação do carimbo de primeiro dia em algumas colecções de selos da CUF. Nas comemorações dos 100 anos da CUF, a Universidade Autónoma de Lisboa promove o Colóquio Internacional “A Industrialização em Portugal no séc. XX: o Caso do Barreiro”, a realizar a 8, 9 e 10 de Outubro, no Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro. As inscrições terminam amanhã (em www.universidade-autonoma.pt ) . A 10 de Outubro inaugura a exposição “100 anos da CUF no Barreiro”, no Museu Industrial da Quimiparque.

Alfredo da Silva e Manuel de Mello

“O excepcional em Alfredo da Silva face aos grandes empresários é as suas condições psicossomáticas extraordinárias, energia e agressividade a raiar os limites e o gosto e capacidade de correr riscos nos negócios”, caracteriza Miguel Figueiredo de Faria, autor da biografia de Alfredo da Silva (Bertrand), e vogal do Conselho Directivo da Universidade Autónoma de Lisboa. O pai da CUF, formado em Gestão e na área industrial, “era dos grandes industriais o que melhor tratava o trabalhador”. Misturava-se com os operários, dizia uns palavrões e contava anedotas, mas era cáustico com aqueles que imaginava que lhe pudessem fazer frente. Jorge de Mello contou, na apresentação da biografia do avô, que uma vez lhe perguntou o “porquê tantas fábricas”. Alfredo da Silva terá respondido: “porque é a minha obrigação”. “Alfredo da Silva não conheceu Salazar no seu expoente máximo porque morreu em 1942″, aos 71 anos, “atendendo a que Salazar sobe ao poder nos anos 30 e que o plano de Salazar é uma imagem consolidada nos anos 60″. O “patrão”, como ainda hoje é recordado por antigos funcionários, “tinha a força necessária à construção de um mito”. Não tendo um filho varão, pergunta a Manuel de Mello, o noivo da única filha, Amélia: “Casa-se também com a CUF?” Seguiram-se mais de 20 anos de trabalho conjunto até Mello se tornar no “principal responsável pelo grupo CUF entre a Segunda Grande Guerra e a primeira metade dos anos 60″, lê-se na biografia de Manuel de Mello )Inapa), escrita por Manuel Figueira de Faria. A cadeia iniciada por Alfredo da Silva foi prolongada até hoje pelos netos Jorge e José Manuel, já que em 1966 Manuel de Mello morre. Mas garante a presença na administração do grupo do irmão Diogo de Mello e do primo António Vasco de Mello. A CUF foi o “grupo económico de maior expansão no País até 74″.

Nota final: A CUF chegou também a ter um Clube de Futebol, na primeira divisão desde a época 53/54 e durante 22 anos. Manuel de Oliveira, como treinador, na época em que foi inaugurado o Estádio Alfredo da Silva, que conseguiu levar o Grupo Desportivo CUF às Competições Europeias batendo o AC Milan por 2 a 0 em casa, em 1965! Do GD da CUF saíram vários jogadores para o Sporting Clube de Portugal e para o Sport Lisboa e Benfica.

Fonte: Revista Domingo do Correio da Manhã, do dia 14 de Setembro de 2008


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