Os hinos nacionais
O século XIX foi universalmente abundante em hinos, odes, marchas triunfais ou fúnebres, elegias, até sinfonias, enfim, toda uma vasta produção poético-musical destinada a celebrar as personalidades, nas nacionalidades mais notáveis e os acontecimentos políticos, militares, religiosos e sociais.
Também em Portugal se compuseram centenas (talvez milhares?!) dessas pequenas obras, a maior parte com honras de edição; mas a verdade é que, essencialmente circunstanciais, bem poucas conservam hoje a sua vitalidade musical, para além da perenidade das datas e factos históricos que devidamente assinalaram.
Neste capítulo, é justa uma referência especial a D. Pedro IV (1798-1834), rei de Portugal e imperador do Brasil, … sua insofismável importância na implantação das liberdades democráticas que constituem o cerne da nossa vivência actual.
Não fora a sua agitadíssima vida politica, militar, social e amorosa, e D. Pedro de Alcântara poderia ter sido um dos mais notáveis compositores do nosso primeiro romantismo.
Herdeiro das conhecidas disposições musicais dos príncipes da Sereníssima Casa de Bragança, recebeu, no Rio de Janeiro, ensinamentos de três notáveis compositores, mestres da Capela Real, que enriqueciam a corte brasileira de D. João VI: o padre José Maurício Nunes Garcia (Rei de Janeiro, 1767-1830); Marcos Portugal (Lisboa, 1762, Rio de Janeiro, 1830) e Segismund von Neukomm (Salzburgo 1778, Paris, 1858), este último considerado o melhor aluno de Joseph Haydn.
As composições de D. Pedro IV que ainda hoje se escutam em Portugal e no Brasil nos concertos e em celebrações religiosas ou cívicas são: o importante Credo, para solistas, coro e orquestra, a «Abertura» orquestral de um desenvolvido Te Deum para os mesmos efectivos artísticos, e alguns dos seus múltiplos hinos e marchas, entre os quais figuram o Hino da Independência do Brasil e o belo Hino da Carta que foi hino nacional português de 1834 a 1911. Estas e mais algumas composições de D. Pedro estão gravadas em discos de várias etiquetas brasileiras.
Porém, a obra que é considerada como o nosso primeiro hino nacional é de autoria de Marcos Portugal; fazia parte da cantata «La Speranza ossia L´Augurio Felice», composta para celebrar o aniversário do príncipe regente (futuro D. João VI), ainda no Brasil, em récita de gala efectuada no Real Teatro de S. Carlos a 13 de Maio de 1809. O final da cantata tornou-se no hino português até 1834 – conhecido primeiro como «Hino do Príncipe Regente», depois por «Hino D. João VI», mais tarde, já na vigência de Hino da Carta, passou a hino da Real Academia dos Guardas-Marinhas por determinação de D. Maria II aquando do juramento de entrada naquele corpo naval do Infante D. Luís, futuro rei D. Luís I.
Com esta denominação, faz hoje parte do repertório da Banda da Armada, encontrando-se gravado por este prestigioso conjunto no LP «Cantando o Mar» (SPA 001), sob a direcção do primeiro tenente músico maestro Manuel Maria Baltasar; também foi ouvido interpretado pela Banda da Guarda Nacional Republicana durante uma celebração histórico-cultural organizada pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal.
A 1ª. Edição da partitura, como o título completo de Hino Patriótico da Nação Portuguesa, dedicado a Sua Alteza Real o Príncipe Regente Nosso Senhor, data de 1810, tendo surgido várias outras edições em 1908 durante as celebrações do Centenário da Guerra Peninsular.
Depois de ultrapassada a trágica sucessão de acontecimentos provocados pelas Invasões Francesas e pela guerra civil, tornou-se moda dedicar hinos, marchas e outras pequenas obras às pessoas reais, aos movimentos, partidos, governantes e militares vitoriosos, a cidades, aos monumentos e, enfim, a toda a variedade possível de acontecimentos; um elevado número de compositores e poetas dedicou-se com afinco a esta tarefa.
Um dos mais prolíferos foi, sem dúvida, Manuel Inocêncio Liberato dos Santos (Lisboa, 1805-1887), de quem os colegas músicos diziam não ser liberal, nem inocente, nem santo …; começou por compor um novo Hino Realista dedicado a D. Miguel I, mas, acompanhou a evolução dos tempos. Bom profissional, chegou com justiça a músico da Real Câmara e a professor dos príncipes e infantes. Além das óperas que escreveu para o S. Carlos, das Fantasias para piano e das obras de música sacra, é autor de numerosos hinos, próprios dos diversos membros da família real reinante; no entanto, nenhuma das suas composições passou, até agora, à posteridade.
Outro compositor que generosamente preencheu o nosso período romântico foi Ângelo Frondoni (Parma, 1812-Lisboa, 1891). Este compositor veio para Lisboa em 1838, escolhido numa espécie de concurso organizado pelo conde de Farrobo para a contratação de um maestro-compositor residente para o S. Carlos; o outro moço concorrente, o preterido, chamava-se Giusepe Verdi…
As óperas italianas de Frondoni não agradaram muito ao sofisticado público do teatro lírico lisboeta; em contrapartida, notabilizou-se como autor de óperas e operetas populares em português, obtendo verdadeiros triunfos nos Teatros das Laranjeiras, rua dos Condes, Trindade, Príncipe Real, Ginásio e outros, reatando com a tradição confirmada desde o século XVIII nos teatros do Bairro Alto.
O seu temperamento ingénuo e bondoso, facilmente inflamável, levava-o a abraçar por vezes causas e reivindicações que se diziam do povo; com poema de Paulo Midosi, compôs assim a música vibrante do Hino da Maria da Fonte também conhecido por Hino do Minho, o que lhe acarretou não poucas contrariedades no contexto político da época. Mas já na segunda metade do século passado o Hino da Maria da Fonte corria todo o País em numerosas edições impressas, ao lado de outras marchas «politicamente correctas».
A verdade é que se trata de uma autêntica obra-prima do género, dos raros hinos oitocentistas que ultrapassaram a barreira do tempo, afirmando-se hoje no repertório popular, no protocolo do Estado e na opção de vivas sensibilizações políticas modernas.
A Celebração de Camões, em 1880, originou um infindável número de composições sem qualquer incidência actual; mas a Comemoração da Independência inspirou a Eugénio Ricardo Monteiro de Almeida (Lisboa 1826-1889) o formoso Hino da Restauração, com poesia de F.A. de Almeida Araújo; ainda hoje se canta, embora o poema esteja modificado, nomeadamente a estrofe «Viva a Pátria, a Liberdade/ Viva o regime da Lei; / A Família Real Viva, / Viva, Viva o nosso Rei.»
Em 1894, as Comemorações do Nascimento do Infante D. Henrique suscitaram à já então consagrada parceria Alfredo Keil ( Lisboa, 1850-1907) – Henrique Lopes de Mendonça (Lisboa, 1856-1931) a composição do Hino do Centenário do Infante D. Henrique, que pela primorosa edição portuense e pela celebridade da autoria nos merece referência – embora praticamente ninguém da nossa geração o tenha ouvido. Foi neste ambiente de patriotismo e de exaltação dos mais altos valores históricos e espirituais da Nação Portuguesa vivido nas últimas décadas do século XX que Vianna da Motta (S. Tomé, 1868-Lisboa, 1948) compôs a Sinfonia à Pátria, inspirada directamente em Os Lusíadas. Estreada no Porto em 21 de Maio de 1897, sob a direcção de Moreira de Sá, é uma obra admirável cuja profunda e apaixonada emoção encontrou na absoluta mestria técnica do autor a mais perfeita das realizações.
O IV Centenário da Viagem de Vasco da Gama à Índia inspirou ao jovem compositor Óscar da Silva (Porto, 1870- Leça da Palmeira, 1958), último lampejo do romantismo musical português, a Marcha Triunfal do Centenário da Índia, obra vencedora de concurso nacional, … .
A Portuguesa, também da autoria de Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça, nasceu a 12 de Janeiro de 1890, exactamente no dia seguinte ao Ultimato do Governo de Inglaterra. Segundo uma vivida crónica não assinada da revista Occidente de 21 de Março desse mesmo ano, «tem este grande valor A Portugueza: o de ter sido produzida no momento em que a população mais se agitava nas suas manifestações patrióticas, estabelecendo uma verdadeira corrente de entusiasmo comunicativo de que Alfredo Keil também se possuiu para o seu inspirado improviso».
Referindo-se à letra, o articulista acrescenta: «A poesia que ao som dessa música se canta não é menos patriótica e levantada, porque nas suas estrofes se recordam as nossas glórias passadas, como as de um povo de navegadores audaciosos e de guerreiros vitoriosos, que não devem esquecer o passado para que lhe seja estímulo no presente. Abençoadas palavras!»

Hino criado e cantado durante a Monarquia, editado primeiramente com as cores azul e branca, oferecidos exemplares à família reinante dos Braganças e ao ramo exilado na Áustria, entoado desde logo pelo povo nas ruas e pelo elitista público de S. Carlos, a todos uniu na indignação redentora perante a ofensa colossal!
Continuador dos dois hinos nacionais antecessores na força do seu patriotismo, foi adoptado pelo Parlamento Republicano em 1911. É de facto o hino de Portugal, e não o desta ou daquela força política, ideologia, clã, agrupamento, região ou seita: com a graça de Deus, engloba e representa todos os Portugueses, de ontem, de hoje, de amanhã.
Texto retirado do livro ” A Monarquia Portuguesa” Edições Reader´s Digest.

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